2024 – THE BIG BROTHER WILL WATCH YOU SOON

“Era um dia claro e frio de abril, nos relógios batiam as treze. Winston Smith, queixo aninhado no peito, num esforço para se proteger do horrível vento, esgueirou-se depressa por entre as portas de vidro…” 1

Vinha tão absorto nos seus pensamentos que não cumprimentou ninguém, enquanto se dirigia para o seu gabinete na Casa da Federação, chamada até há alguns meses, Palácio de São Bento, que chegara a ser conhecida como “casa da democracia”. Vislumbrava cenários de anos atrás, em que em conversas privadas tinha alertado para aquilo que lhe parecia ser uma tentativa do Governo vigente de se perpetuar no poder, através de jogadas, mais ou menos obscuras, de controlar todos os órgãos do Estado e, inclusivamente, empresas estratégicas, como a transportadora aérea ou os correios.

O primeiro-ministro da época, que ainda se mantém, tinha conseguido nomear para governador do Banco de Portugal o seu ministro das Finanças, resolvendo assim as divergências que poderiam daí advir sobre algumas das suas acções enquanto ministro. O anterior primeiro-ministro, de quem o actual fora braço direito, tinha sido preso por inúmeros crimes e o juiz que o julgava, tido como um tipo firme e incorruptível, acabou substituído por um outro magistrado mais amigo. A procuradora que abertamente denunciara redes de corrupção e de compadrio nas áreas da contratação pública e, sem medo, anunciava um Estado capturado pelas teias deste mesmo Governo, contra a opinião pública, não foi reconduzida no cargo, tal como não fora o Presidente do Tribunal de Contas, que acusara o Governo de tentar aprovar leis que fomentavam a corrupção e actos ilícitos.

Estava à vista, há alguns anos, pelo menos para Winston, que este Governo pretendia não só perpetuar-se, mas dominar de uma forma totalitarista o país. Winston tentou remar contra a maré, inclusivamente nas redes sociais, mas era consecutivamente bloqueado e atacado; tentou pelos órgãos de comunicação social, mas estes, recebendo vários milhões de euros do próprio Governo, tornaram-se subservientes, perseguindo os poucos que se lhes opunham, inventando histórias e até perseguindo familiares.

Pediu um café com bebida de soja, que odiava, mas os produtos de origem animal foram proibidos há catorze meses. Nas instituições públicas já não se comia carne ou peixe e poucos eram os supermercados que ainda os vendiam. Só em casa as pessoas os podiam cozinhar, mas os preços eram proibitivos.

Sentou-se, na mesa ao lado dois agentes de autoridade falavam em sussurros:

– Nós não temos meios e a Polícia Judiciária, já viste? Retiram-lhes fundos, até a Unidade de Combate à Corrupção está a ficar sem os melhores investigadores e sem recursos. O meu cunhado tem andado em trabalho no carro da minha irmã!

– Só se vão lembrar de nós quando a anarquia que eles querem realmente se instalar…

Winston lera regularmente, durante meses, informações sobre os inúmeros processos-crime de corrupção e tráfico de influências, quer nos partidos, nas autarquias, no sector dos transportes e até nas Forças Armadas. Conhecia perfeitamente os jogos de bastidores e o tráfico de influências. Ainda tinha na memória o caso de um processo antigo de pedofilia que envolvia elementos do partido deste primeiro-ministro e em que o próprio tinha sido escutado a tentar mover influências para proteger os seus camaradas. Uma proeminente figura do Estado, também envolvida no processo, inclusivamente desdenhara em vernáculo, da justiça da época e, mais tarde, fora recompensado com um dos mais altos cargos da nação.

Outros envolvidos em processos e negociações de parcerias altamente prejudiciais para o Estado eram nomeados para assessores ou outros cargos públicos bem remunerados, o país recebia refugiados de todo o mundo que eram instalados, a expensas públicas, em residenciais de associações dirigidas por deputados do Partido.

Tudo se podia para os camaradas do Partido e todos os que a eles se opunham eram retirados dos cargos que ocupavam, dos jornais onde escreviam, das televisões onde tinham voz… muitas forças se concertavam para eliminar os “anti-sistema” que Winston já fora, mas fruto da idade ou de uma resignação inconsciente, lentamente deixara de ser.

Até que durante a noite de ontem, já depois do fecho da emissão, fora convidado para uma reunião, que se queria secreta, com o nome de código “Liberdade”. O convite havia chegado por via de uma chamada anónima, indicando a hora e o local da mesma.

– “Saudações” – a camarada com quem partilha o gabinete saúda-o com uma carta na mão – “Entregaram há minutos camarada, é para si”.

Dentro do envelope apenas a mensagem “É favor dirigir-se ao gabinete do seu superior”.

Ouvindo o ranger das desgastadas tábuas de carvalho, Winston bate à porta, entrando após autorizado, depara-se com dois agentes na companhia do seu chefe, o mais medalhado informa-o com escárnio:

– Tem de nos acompanhar, vamos conversar sobre um telefonema que recebeu na noite de ontem.

1 1984, Orwell, George

NUNO AFONSO, VICE-PRESIDENTE PARTIDO CHEGA