A democracia portuguesa; a caminho do totalitarismo?

 O totalitarismo surge no horizonte como um resultado possível da evolução da democracia portuguesa. É o desejo dos dois partidos dominantes e o logro em que caíram muitos portugueses, talvez até a maioria. 

O objectivo da democracia tal como entendida em Portugal é a igualdade. Os cidadãos são educados a não suportarem qualquer forma de desigualdade. A própria Constituição nos fala na igualdade real entre os cidadãos como objectivo político confesso. A liberdade fica em segundo plano. 

Vejamos; criado desde a infância na ideia-força da igualdade o cidadão confia no poder que mais facilmente lha pode transmitir, o Estado. Este aparece-lhe como um poder neutro e providencial que não prejudica a independência do cidadão e dele cuida. Os partidos dominantes divulgam esta retórica. Mas o que quer o Estado em troca? Quer tudo. Não é apenas a riqueza dos cidadãos para ele quase toda transferida através dos impostos. É muito mais do que isso. O Estado quer a vontade e o coração dos cidadãos. Quer substituir-se a estes no exercício das suas faculdades e competências. Quer crescer à custa deles. Pretende ser ele e apenas ele a dispensar aos cidadãos tudo quanto contribua para a sua felicidade. Transforma-se numa espécie de pai natal. O 

mote é mais Estado e melhor Estado. O partido socialista abençoa este ponto de vista e o p s d também; um Estado centralizador em permanente expansão autoproclamado bom para os cidadãos. 

A liberdade de os cidadãos tomarem conta deles próprios e proverem ao seu sustento e felicidade individual é vista como um empecilho e mesmo um perigo. E o que diz o cidadão? Pouco. Muitos preferem um bem-estar medíocre induzido pelo Estado às aventuras da liberdade individual. Pudera; aí está o totalitarismo estatal a velar por nós qual nova providência divina santificada pelos partidos do costume. A seus pés um bando de cidadãos infantilizados, venerandos e obrigados a quem uma nova classe de dirigentes «democratas» criados nos partidos exige devoção e confiança. 

Tudo corre, portanto, pelo melhor? Não. Sem liberdade de opção a democracia política transforma-se em totalitarismo. Quando a escolha está reduzida ao serviço estatal a liberdade está atrofiada. Sem liberdade não há democracia. E a liberdade, coisa que os partidos dominantes não perceberam, é um valor individual e não colectivo. 

O imortal zé-povinho, esse personagem caracteristicamente português, não é a figura que aparece nas manifestações da CGTP. Não. É o símbolo da desconfiança relativamente aos benefícios do poder repartido entre dois partidos dominantes com tendências totalitárias. Não é por acaso que Rafael Bordalo Pinheiro 

lançou a figura na fase final do regime monárquico constitucional, com tantas semelhanças com o actual. O militante de base do Chega, descontados alguns exageros próprios de uma formação política recente, faz lembrar precisamente aquela figura e as suas motivações são muito parecidas. O português sabe bem que nada é de graça e desconfia de quem tudo lhe promete. É por isso que o Chega vai crescer. 

Luiz Cabral de Moncada