A desestabilização de Moçambique

A história recente mostra-nos que se deixarmos o monstro do terrorismo apoderar-se de territórios, assentar as suas bases, e consolidar as suas estruturas operacionais, sejam elas militares stricto sensu ou outras como as estruturas logísticas e de propaganda, pagamos sempre um elevado preço por essa passividade e inação.

A consolidação territorial e operacional de estruturas terroristas permite que estas exponenciem a sua capacidade de espalhar o terror, não só junto dos territórios que controlam, como permite também levar esse terror aos países e, por conseguinte, às populações que estes consideram ser os seus alvos legítimos.

Esta valência é gerada pela capacidade de, ao controlar territórios, ter acesso a recursos fundamentais para a luta terrorista, como sejam a capacidade de recrutamento de operacionais nas populações desses mesmos territórios, muitas das vezes reféns desses grupos, estabelecimento de campos de treino, logísticos e de centros de propaganda, assim como o fundamental acesso a recursos naturais valiosos que são logo transacionados no mercado negro e que constituem uma fonte essencial de financiamento das operações terroristas.

Nos últimos anos, tivemos os exemplos da expansão e implantação da Alqaeda no Afeganistão, que potenciou toda a logística dos ataques do 11 de Setembro, e do DAESH, no Médio Oriente, que permitiu a esta organização montar uma estrutura de terror nunca antes vista, que não só pôs em xeque Estados e territórios daquela região, como lhes permitiu exportar esse terror, de uma forma mortalmente eficaz, a outras regiões do planeta, como foi o caso da Europa.

Deixar que este tipo de organizações ganhe força e consolidem território, significa potenciar capacidades de ações terroristas que mais tarde ou mais cedo vão atingir seguramente as nossas ruas, as nossas famílias, mesmo no coração do ocidente, como os terríveis atentados em Nova Iorque ou Paris o demonstraram.

Nesse sentido, atuar em Moçambique torna-se uma necessidade evidente. Para além dos laços históricos que unem ambas as nações, deixar Moçambique à mercê do DAESH, vai representar uma ameaça real e direta a Portugal. Pela primeira vez, existiria um país lusófono, com um vasto conhecimento sobre toda a realidade portuguesa, infiltrado e parcialmente controlado por uma das mais sanguinárias organizações terroristas do planeta. Se a isto somarmos os recursos de que se poderiam apropriar em províncias como Cabo Delgado, não tenho dúvidas que seria uma questão de tempo até que, as primeiras bombas, os primeiros atos terroristas, sucedessem em Portugal.

Essa atuação passa a meu ver por vários vértices. O primeiro é a fronteira norte de Moçambique com a Tanzânia. A porosidade dessa fronteira permite a passagem de insurgentes, moçambicanos e estrangeiros, com grande facilidade, num país onde o conflito com os jihadistas islâmicos está longe de ser ganho, permitindo este facto a utilização do território da Tanzânia como base operacional para a planificação, recrutamento e acolhimento de insurgentes após os ataques em território moçambicano. Assim, seria do interesse de Moçambique, partilhar de alguma forma, os vastos investimentos que estão a ser feitos por consórcios internacionais na região norte com vista à exploração do gás natural existente na região.

 

O segundo vértice passa pelas ações do Estado Moçambicano no terreno. É imperativo diminuir a taxa de deserções no exército moçambicano, melhorando o seu treino e aumentando os vencimentos dos militares. Também o reforço de laços e meios com a etnia maconde, a do Presidente Filipe Nyusi, onde um conjunto de grandes lideranças desta etnia em Cabo Delgado promoveu a mobilização de combatentes que levou a grandes sucessos operacionais na região.

Por último, mas não menos importante, a cooperação internacional. E nesse sentido, a de Portugal em particular. Portugal deveria ter uma participação que fosse para além dos planos de instrução de forças especiais moçambicanas. Pelas razões que referi no início do artigo, Portugal deveria empenhar um contingente terrestre, com um efetivo superior ao que está na República Centro-Africana. Este contingente teria que ser verdadeiramente independente em todos os sentidos, com as subunidades de manobra necessárias, apoio de fogos em todas as vertentes, a óbvia vertente logística, e com o indispensável o apoio aéreo, que deveria ser constituído por um destacamento nunca inferior a três helicópteros. Para constituir tal força, seriam necessários, no mínimo, uns 300 elementos, com especial e natural destaque, pelas especificidades do teatro de operações, de militares do Corpo de Fuzileiros.

Só uma estratégia assim,  multifacetada mas ao mesmo tempo integrada, permitirá a Moçambique evitar uma desestabilização que em última análise, o pode mergulhar num cenário de caos, guerra e morte, como já assistimos anteriormente em muitas regiões do planeta.

 Jorge Santos Pereira