A esquerda portuguesa, o pluralismo e a democracia

A esquerda portuguesa abomina o pluralismo. Toda ela. Não conheço nenhum esquerdista, e conheço muitos de várias procedências, que o tolere. E quanto à democracia tem dela uma concepção mais que discutível.

Vejamos; o que a esquerda nacional pretende é cimentar a sua soberania. Tem uma visão rígida da sociedade alicerçada em classes sociais definidas portadoras de interesses opostos e quer servir-se da soberania para alterar a sociedade em prol de um desenho suposto mais «justo», «solidário» e «igualitário» de acordo com um esquema previamente definido. Para isto é essencial chegar ao poder e conservá-lo. A receita é simples; imbecilizar os portugueses, impedi-los de pensar livremente, levar os medíocres para a política e fornecer a mais cretina das vulgatas ideológicas. Assim é que se garantem as maiorias necessárias.

O problema é que a esquerda confunde a liberdade política com a vontade de construção de um modelo de sociedade e, assim sendo, repudia o pluralismo democrático. Reprime a liberdade de pensar de modo a conservar o poder. Não lhe passa pela cabeça que o pluralismo vive da opinião e do confronto de opiniões e que a liberdade humana consiste na capacidade de ser diferente e de sustentar o seu modo de ver as coisas. Nada disso; quem pensar de modo diferente da esquerda é imediatamente alcunhado de extrema-direita e até fascista; já o foram os militantes do PSD, depois os do CDS e agora é a vez do Chega. O alimento da esquerda portuguesa é a caça às bruxas. O fundamento da esquerda nacional não é a democracia política; é o jacobinismo saído da Convenção durante a Revolução Francesa. Não passa

pela cabeça da esquerda portuguesa que a democracia vive do aumento contínuo da nossa liberdade individual e colectiva e que isso conduz necessariamente ao pluralismo. Não vive do alinhamento por um modelo de sociedade previamente delimitado a impor por despacho a todos. Para fazer crescer a liberdade e a diferença que assim gera a democracia precisa mais de autoridade do que de soberania, mais de opiniões diferenciadas do que de maiorias, mais de respeito pelo próximo do que de ideologia. O que importa é a liberdade de opinião e o pluralismo dela consequente e não a vontade da maioria nem a adesão a um modelo salvífico de sociedade.

A luta política vive do pluralismo e do confronto de opiniões. Saberá a esquerda portuguesa porquê? Não, não sabe. É porque a vida social e política se faz através do estabelecimento de relações permanentes entre os homens e delas resulta uma frutuosa diversidade e a constante inovação. Ora é isto que a esquerda portuguesa não quer. Nada de opiniões suspeitas, nada de exterior à quadratura ideológica que nos quer impingir. Pas de liberté pous les ennemis de la liberté, eis uma máxima robespierriana que poderia estar na boca de qualquer dirigente da esquerda nacional, assim ele soubesse quem foi Robespierre, coisa que duvido.

A democracia não tem objectivos. A esquerda portuguesa é que os tem. A democracia não vive apenas dos resultados do acto eleitoral; vive da capacidade de pensar dos homens livres e dos resultados a que conduz. Não é a democracia dos números mas das pessoas. Não é a prerrogativa de um partido supostamente iluminado que quer impor a sua escala de valores aos outros mas o resultado do exercício da liberdade de todos. É autonomia e não alinhamento ideológico.

Um conselho aos esquerdistas; não ouçam as estúpidas e barulhentas passionárias da vida política portuguesa. Cultivem-se.

Em vez de as ouvir leiam a Hannah Arendt. Sabem quem foi? Procurem e não se vão arrepender. Do que vós precisais, oh esquerdistas, é de mais cultura. Mas atenção, esta não reside no artesanato nem no teatro subsidiado.

Luiz Cabral de Moncada