A esquerda portuguesa precisa do fascismo

 A esquerda portuguesa, toda ela, necessita do fascismo. E precisa porquê? Para se legitimar. Passo a explicar. A esquerda está num impasse. A queda do comunismo não a deixou nem podia deixar indiferente. Finge que não mas não deixou. As consequências do desaparecimento inglório do comunismo fazem-se sentir e de modo imediato. Na impossibilidade de reivindicar aquilo que foi um logro criminoso a esquerda refugia-se na identificação do inimigo. Como este não existe há-que o inventar. Qual é o inimigo mais à mão? Qual aquele mais evidente e que desperta o maior ódio? É o fascismo, evidentemente. Este já há muito que deixou de ser um substantivo. Para a esquerda nacional é um simples adjectivo. 

O que o fascismo foi não importa. Nem a esquerda sabe. O que importa é identificar a demonizar o inimigo. O universo mental da esquerda portuguesa é concentracionário pois que está dividido entre duas grandezas homogéneas e em permanente conflito; eles e os outros que são obviamente os «fascistas». O adjectivo «fascismo» é o testemunho da paralisia intelectual de grande parte da esquerda nacional. 

Foi esta miséria intelectual que justificou o terror estalinista. Foi em seu nome que foram fuzilados e condenados a trabalhos forçados milhões de homens. Já se esqueceram que Kamenev, Zinoviev, Trotsky e Bukharine foram condenados e executados como «fascistas»? Quando a esquerda começa a falar em «fascismo» é porque se sente insegura e quer reforçar posições à custa obviamente da nossa lucidez mental. É o que se passa presentemente neste país. Daí presentear-nos com toda uma 

séria de embustes e frases feitas que se destinam a impedir-nos de pensar. 

E o curioso é que certa direita vai nesta conversa. Não consegue libertar-se das peias que o mundo concentracionário da esquerda nela provocou. Também aquela direita vê «fascismos» em toda a parte com medo que o epíteto lhe fique colado. Pudera, na falta de cultura ideológica e preparação doutrinária certa direita portuguesa está à mercê das patranhas da esquerda. Deixa-se cavalgar por ela e este é o grande trunfo da esquerda; entrou dentro da cabeça dela e aí, como um parasita, faz estragos. Exporta para a cabeça dela aquilo que lhe convém e dela faz o principal testemunho da sua distorcida visão das coisas. Aquela direita dança a música que a esquerda quer. Esta está radiante, claro. Pois então, serve-se daqueles «idiotas úteis», na expressão de Stalin, para os seus fins. 

Aquilo de que a esquerda tem verdadeiramente medo não é da direita domesticada que a serve mas apenas de que os cidadãos pensem pela sua própria cabeça na qualidade de maiores e não de menores imbecilizados. É que pensar pela nossa própria cabeça pode levar-nos a concluir que o universo concentracionário da esquerda nacional não vale nada. Pode levar-nos a compreender que os mitos em que se refugia têm pés de barro, que não passam de anedotários mal cosidos e histórias de encantar. Do que a esquerda tem verdadeiramente medo é da consciência crítica porque sabe que esta não a poupará. 

Mas cuidado camaradas, porque se assim procederem, se pensarem por vós próprios, se quiserem reformar o que há a reformar no modelo político em que vivemos, se não se satisfazem com a pobreza ideológica que nos impingem, se não hesitarem em denunciar as vergonhas que quotidianamente presenciamos já sabem; já são perigosos «fascistas». 

Luiz Cabral de Moncada