Jardim de Belém, 12 de Março, dez horas. Local, dia e hora em que se iniciava, por tempo indeterminado, um protesto dos profissionais da Polícia de Segurança Pública, uma greve de fome, com a abstenção de ingerir alimentos sólidos.

Reivindicavam a ausência de respostas e soluções do Ministro da Administração Interna. Na base do protesto o incumprimento da decisão judicial do Supremo Tribunal Administrativo, que condenou o Estado ao pagamento de todos os Suplementos Remuneratórios aos elementos policiais desde 2010, durante os períodos de férias; a existência de dois subsistemas (Caixa Geral de Aposentações e Segurança Social), consoante se tratem de elementos incorporados até 31 de Dezembro de 2005 e após 01 de Janeiro de 2006, subsistemas esses, com regras distintas, para os profissionais da PSP; o aumento imediato do Suplemento por Serviço nas Forças de Segurança, para o percentual de 25%; a indexação dos Suplementos Especial de Serviço, Patrulha, Turno e Piquete e Comando, à remuneração principal de cada elemento policial; e ainda a revisão imediata do factor de sustentabilidade, aplicado aos profissionais da PSP, que se aposentaram entre 2014 e 2015, factor esse que resultou numa perda significativa do valor da pensão de aposentação.

Ao quarto dia de greve, solidarizei-me com o protesto. Deparei-me com Peixoto Rodrigues, Presidente do Sindicato Unificado da Polícia, e uma força de vontade inabalável. Rodeado de mantas, garrafas de água, colegas e família, simpaticamente acedia ao diálogo com quem lhe dirigia apoio. Até ali apenas havia dialogado com duas assessoras do Presidente da República. É certo que Marcelo Rebelo de Sousa não pode tomar quaisquer decisões no sentido das reivindicações, mas esperava que o proclamado “Presidente dos Afectos” tivesse descido a rua e se solidarizado numa selfie com Peixoto Rodrigues, mas não estávamos no Jamaica. Vimo-lo, ao longe, chegar ao Palácio, com o habitual aparato da sua deslocação. Também ninguém do Governo marcou presença. Afinal, um polícia em greve de fome no Jardim de Belém não dá votos nem audiências como uma cataplana de peixe no Programa da Cristina. Recordo o enfermeiro que havia efectuado o mesmo protesto e em menos de dois dias teve um telefonema da Ministra da Saúde, que colocou termo à greve de fome. O telemóvel de Peixoto Rodrigues tinha bateria e rede, mas só tocou para receber inúmeros apoios, nem uma única vez da parte do Ministério da Administração Interna. Só se lembram dos polícias quando deles necessitam. Lembra-me o episódio daquele assessor do Bloco de Esquerda que se dirigiu aos órgãos policiais como “a bosta da bófia” e dias depois veio pedir protecção policial. Surpreendido, caro leitor? Não, porque neste Portugal só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja.

Já passaram várias horas desde a hospitalização de Peixoto Rodrigues. Até à data em que escrevo este artigo, nem uma palavra de qualquer entidade oficial.

Fernanda Marques Lopes