As habituais resmunguices da esquerda portuguesa

 A ofensiva contra o partido Chega tem sempre os mesmos fundamentos mas é patrocinada por dois grupos distintos. O primeiro grupo invectiva o Chega com ataques pessoais, as habituais imprecisões e bolsa as costumeiras mentiras; diz que o partido é neo-fascista, que conta com elementos neo-nazis, que é visceralmente nacionalista, violentamente racista e até colonialista, que tem ligações aos mais cavilosos centros do dinheiro, que é homofóbico, etc… Usa o habitual argumentário da esquerda nacional. Desta vez mais contundente perante o susto em que as sondagens a induzem. 

Este tipo de críticas não deve sequer preocupar os militantes do partido Chega. Traduz a miséria intelectual e moral do jornalismo português e de alguns «intelectuais» de serviço. Alimenta-se de uma mistela mal digerida de empirismo, fake news, estupidez, falta de cultura e preconceito. Nada de novo. 

Mas há um segundo grupo de ataques. Distingue-se do primeiro porque pretende arvorar alguma elevação «científica». Consta de artigos assinados nos jornais a que os seus arautos, e só eles, têm acesso. Mas não se pense que os argumentos são mais elevados. Nada disso. Os argumentos são os mesmos e o tom é panfletário. E são-no porque a esquerda nacional quer a jornalística quer a de feição «intelectual» não sabe usar outros argumentos nem os conhece. A única diferença é que esta última em vez de simplesmente apresentar considerações lá as vai rodeando de uma linguagem quase cifrada e pouco acessível de modo a épater. A metodologia nada tem de teórico nem de crítico. Limita-se a apresentar factos, sem o adequado tratamento, notícias de jornal como se de verdades absolutas se tratasse e insinuações logo arvoradas a certezas e daí pretende deduzir conclusões que são obviamente tendenciosas e falsas. Recusa-se terminantemente a criticar o Chega por razões de fundo ou ideológicas. Substitui a ideologia pelo comentário do quotidiano. Não discute ideias porque as não têm; fica-se pelas banalidades e pelo lavar de roupa suja. São isto os «intelectuais» de serviço. Proponho-lhes que concorram ao Big Brother e que aproveitem para aí brilhar. 

O que não querem nem podem entender é que o Chega surge como um projecto de reforma da democracia e da retoma de valores conservadores. O Chega não é neo-liberal; é personalista em economia e em questões sociais. Saberão eles o que isso quer dizer? Obviamente que não. O que dá força ao partido é a denuncia de um sistema democrático bloqueado por dois partidos dominantes que têm governado sozinhos ou com as suas habituais muletas à esquerda e à direita, apostados na governamentalização do estado, na rigidez das leis fundamentais da República, na desvalorização escandalosa do controlo político do Governo, na marginalização da oposição, na inoperância das comissões parlamentares, na fuga do poder de decisão parlamentar para as sedes dos partidos nas costas dos eleitores, no controlo vergonhoso da comunicação social, na irresponsabilidade dos gestores públicos perante o Tribunal de Contas, no atraso da justiça entre tantos outras evidências que seria fastidioso enunciar aqui. 

Para além disso o Chega defende concepções sociais mas isso não interessa à esquerda. O partido é obviamente adepto das conquistas sociais já concretizadas que é como quem diz, do serviço nacional de saúde, do rendimento social de inserção, de uma rede de escolas públicas 

gratuitas, da elevação do salário mínimo, do favorecimento do trabalhador como parte mais fraca, da protecção do consumidor e do inquilino, etc… O que distingue aqui o Chega é que aposta na flexibilização das soluções de modo a não sobrecarregar com impostos a classe média preferindo, quando possível, mais iniciativa privada, descentralização e autonomia e menos autoritarismo, mais mérito e menos nepotismo, mais contratos e menos funcionários. A esquerda não quer ver mas os eleitores querem. 

Pelo que aos valores diz respeito, o que secunda o Chega é, entre muitos outros aspectos, o escândalo da sovietização da educação das nossas crianças obrigadas e estudar programas aldrabões e absurdos vitimizadas pela deseducação nas escolas públicas. Considera-se hoje que as crianças pertencem ao estado e não às famílias e criminosamente marginaliza-se a educação familiar e o seu consequente papel na formação moral e intelectual das crianças. Nem Rousseau foi tão longe. É que a esquerda portuguesa nunca leu o Emílio ou então julga que ele é avançado centro numa equipa de futebol. O modelo rousseauniano de educação era natural e não livresco, sadio e não intelectual, livre e não autoritário mas não era estatal nem afastava a família dos jovens. 

Pôr a esquerda jornalística e mesma a «intelectual» a discutir isto em nome da publicidade democrática? Nunca ela o faria por falta de preparação. É muito mais fácil continuar a dizer que o Chega é «fascista», epíteto que tal esquerda não sabe bem o que significa mas adiante. Ou então diz que o Chega é de «extrema-direita», coisa que a esquerda também não sabe bem o que é. Desde a Convenção de Évora-Monte que a extrema-direita organizada não tem voz activa em Portugal. O integralismo lusitano pouca expressão autónoma teve e o salazarismo foi um regime ditatorial autocrático pouco baseado em ideologia e mais na devoção, por convicção ou oportunismo, a um ditador inteligente e implacável mas pouco culto que obviamente não lhe sobreviveu, tal como o franquismo. Mas nada disto importa à esquerda nacional. Tem necessidade de chavões para articular o «pronto a pensar» que a caracteriza. 

A visão de um partido conservador quanto aos valores mas com preocupações sociais e disposto a reformar a democracia política e social portuguesa? Era só o que faltava. Ainda por cima apostando no contacto directo com os cidadãos e na disseminação de um pensamento crítico e moralizador contra a tirania do politicamente correcto e da imbecilidade generalizada? Que medo. A esquerda «intelectual» não quer que o povo pense; ela é que pensa em nome do povo. O seu modelo político já nem é o marxismo, coisa que dá trabalho a digerir e que passou de moda. O modelo é o jacobinismo ou seja, a (pseudo) legitimidade de uma vanguarda iluminada que tudo decide em nome do povo. Os candidatos a Maximilianos lá estão à espera de vez. Já perderam mas ainda não perceberam. 

Luiz Cabral de Moncada