Nos últimos cinco dias, o vídeo da primeira intervenção de André Ventura na Assembleia da República foi visto mais de 361 mil vezes. Enquanto isso, nenhum dos vídeos publicados na conta do PS na mesma rede social foi além das 8,6 mil visualizações. O politólogo António Costa Pinto frisa que “existe uma escassa relação entre partidos que ganham eleições e aqueles que têm mais impacto nas redes”

Apolítica é um exercício de “viralidade” de ideias, e a internet o ecossistema ideal para inoculação. Em Portugal, tudo indica que o Chega, de André Ventura, pode ter inaugurado um novo capítulo nesta história. O vídeo da primeira intervenção do deputado na Assembleia da República, na passada quarta-feira, publicado na conta do Youtube do partido alastrou no universo digital: nos últimos cinco dias, foi visto mais de 361 mil vezes, um número significativo por comparação com o registo dos segmentos partilhados nos canais oficiais dos restantes partidos com assento parlamentar.

Nenhum dos vídeos publicados na conta do PS no Youtube, relativos ao mesmo dia, foi além das 8,6 mil visualizações. Isto, se tivermos em conta os segmentos em que aparece António Costa, que estão melhor classificados. (As três intervenções de Matos Fernandes, ministro do Ambiente, no debate inaugural, contam com zero, quatro e 124 visualizações, respetivamente.)

O único partido que apresenta um registo comparável com o do Chega é o PSD. O segmento em que Rui Rio se dirige pela primeira vez a António Costa foi visto 81 986 vezes. Ainda assim, feitas as contas, as palavras de André Ventura foram ouvidas quatro vezes mais do que as do líder social-democrata.

É preciso, contudo, evitar conclusões precipitadas. “Há uma grande diferença entre o peso eleitoral de um partido e a sua representatividade nas redes sociais”, aponta o politólogo António Costa Pinto. É normal que a mensagem dos maiores partidos – com mais lastro no sistema mediático – tenha menos impacto nas redes sociais, pois o seu conteúdo já “é normalmente divulgado pelos meios de comunicação tradicionais”. “As redes sociais não expressam a opinião pública portuguesa ou mesmo nenhuma opinião. Existe uma escassa relação entre partidos que ganham eleições e aqueles que têm mais impacto nas redes”, frisa.

O que se pode afirmar neste momento é que “indicador de notoriedade de Ventura, com a sua eleição, explodiu”. “O número de referências em meios de comunicação aumentou. Agora, André Ventura tem pontos de contacto maximizados com o seu eleitorado preferencial”, diz Costa Pinto.

Segundo o politólogo, o modelo de comunicação do líder do Chega – discurso polarizado, mensagem curta – é propício ao ecossistema digital. “Quanto mais simplista é o discurso, mais impacto tem nas redes sociais. Sobretudo se as ideias foram expressas de forma clara”, explica.

A seguir ao PSD, na lista de vídeos mais vistos da primeira sessão parlamentar da nova legislatura, está a intervenção de João Cotrim Figueiredo, do Iniciativa Liberal, com 19 817 visualizações; à distância está Joacine Katar Moreira, do Livre, com apenas 4819. Nos últimos lugares, surgem a CDU e o PAN. A intervenção de Jerónimo de Sousa, político com longo percurso no Parlamento, foi vista 185 vezes; por sua vez, a de André Silva conta com 127 visualizações.

Dos nove partidos com assento parlamentar, só o CDS não divulgou nas contas oficiais do partido no Youtube as intervenções dos seus deputados.

NÚMERO DE SEGUIDORES DO CHEGA “REBENTA”

Desde quarta-feira, o número de subscritores do canal do Chega no Youtube “rebentou”. Até dia 30 de outubro, “eram 20 ou 30 seguidores. Neste momento, está nos 11.501”, revela Gerardo Pedro, responsável de comunicação do partido, ao Expresso. No Facebook, “temos vindo a crescer a uma média de mil fãs por dia”. “Tivemos de reforçar a equipa de comunicação para responder às centenas de mensagens que recebemos por dia”, diz.

Sem surpresas, as redes sociais são uma “grande aposta” do Chega. “Foi das formas que encontramos de chegar ao eleitorado de forma fidedigna. No caso do Youtube, passa por partilhar as nossas intervenções de forma integral, o que não acontece nas televisões”, diz André Ventura, ao Expresso. Esta estratégia trata-se por “uma forma de divulgação e escrutínio que os nossos militantes passam a ter do trabalho no Parlamento, uma oportunidade para aumentar a interatividade com a nossa base.”

Para justificar esta necessidade, André Ventura dá um exemplo: não querendo entrar em “teorias da conspiração”, frisa, nota que a RTP “parou a emissão” no preciso momento em que ia falar, na quarta-feira à tarde, e voltou ao direto do Parlamento quando chegou a vez do representante da Iniciativa Liberal.

No campeonato das redes sociais, o Chega está num nível diferente dos restantes partidos com assento parlamentar. Um exemplo: há pouco mais de 24 horas, o partido de André Ventura publicou uma imagem em que critica a intervenção do ministro Eduardo Cabrita, quanto à invasão do quartel de bombeiros de Borba. Desde então, recebeu mais de 5700 likes, 1200 comentários e foi partilhado por 3700 vezes.

De acordo com Gerardo Pedro, a publicação, que não foi “promovida” ou “financiada” nas redes sociais, alcançou, “de forma orgânica”, cerca de meio milhão de pessoas. “Estamos a receber, em média, uma nova inscrição de militante de quatro em quatro minutos”, revela ainda o responsável de comunicação do Chega.

in Expresso