Depressão mental coletiva: os portugueses podem voltar a dar «novos mundos ao mundo» (II)

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O Meu Diário de Voto em André Ventura por Gabriel Mithá Ribeiro

Leia diariamente nesta página textos, excertos ou frases destinados a resgatar os portugueses da alienação mental imposta pelas elites jornalísticas, académicas, intelectuais, políticas ou artísticas de um regime falido. Contra ele, André Ventura e o CHEGA fazem germinar uma força moral e cívica imparável que fará nascer a IV República Portuguesa. 

Para percebermos a gestão patológica da memória histórica e social imposta pela esquerda através do controlo dos departamentos universitários, regressemos ao núcleo fundador, à relação entre colonizado e colonizador (história), do qual deriva o ideal social do Ocidente (sociedade), a relação entre minorias (vítimas da história) e maioria (eternos carrascos).

A saúde das faculdades morais e intelectuais depende da capacidade do sujeito individual ou coletivo em abrir o espírito, em expandir os campos de significação da memória, uma vez que a mente humana é necessariamente ambivalente, isto é, vive do equilíbrio entre contrários. Só assim o sujeito possui o controlo mental sobre o seu destino.

É aqui que entram os significados da colonização europeia. Ao sujeito colonizado e os seus herdeiros na terra originária (como os africanos) ou nas diásporas (como as minorias negras no Ocidente) compete valorizarem, por si mesmos, o que existe de positivo nas suas memórias que se reportam ao período anterior à colonização, ao período da colonização e ao período pós-colonial, isto é, o sujeito tem de valorizar aquilo que de bom fez por si mesmo.

É isso que faz com que a dor narcísica inevitável da colonização europeia se torne suportável. Como a herança da colonização está de tal maneira integrada na identidade do sujeito coletivo descolonizado (língua, hábitos de vida, cultura escrita, entre outros), lutar contra essa herança é uma forma de auto-humilhação que favorece a instigação do instinto de morte voltado contra o próprio sujeito ou contra os outros.

É o que acontece quando a historiografia oficial fixa a memória no ódio ao antigo colonizador e, com facilidade, isso gera processos de alienação mental. Tal significa deslocar esse ódio do seu tempo e espaço próprios, isto é, fazê-lo transitar de África e do tempo colonial para fixá-lo no Ocidente e no tempo atual. É esta loucura civilizacional que o pensamento de esquerda, todo ele, fabricou e promove.

O estereótipo persistente do branco racista é hoje um processo típico dessa alienação mental. Ele é sobrevalorizado (na universidade, na imprensa, na vida política) justamente no momento histórico em que as sociedades maioritariamente brancas da Europa e, em geral, no mundo ocidental são muitíssimo tolerantes em relação aos negros (e demais minorias, como a islâmica) do que o inverso. Hoje é comparativamente muitíssimo mais sujeita a todo o tipo de pressões legítimas (por parte dos governantes pós-coloniais e não só) e ilegítimas (como a exigências de subornos ou a criminalidade, incluindo a violenta) a minoria branca em sociedades esmagadoramente negras (ou a minoria cristã em sociedades islâmicas).

Por ser assim, o novo racismo (ou a nova discriminação social) é, na designação, o mesmo que o original do século passado, porém a relação entre vítima e carrasco é inversa em relação ao período histórico originário. É por isso que o racismo e a discriminação do século XXI têm características patológicas de dissociação mental. Alienação mental é tudo isso: o rótulo não coincidir com o conteúdo e estes andarem deslocados no tempo, no espaço, nas pessoas.

Em rigor, na atualidade não existe racismo, apenas a projeção alienada do fenómeno, uma vez que o contexto histórico da sua existência desapareceu. Foi desaparecendo desde o fim do nazismo (1945), da discriminação racial formal nos Estados Unidos da América (anos 1950-60), da colonização europeia (anos 1970), da guerra fria (1945-1991) ou do apartheid na África do Sul (1990-94), o toque de finados do racismo. Essa tendência foi de uma tal consolidação moral e histórica sequencial que não ficou pedra sobre pedra do racismo.

Todavia, o tema deste texto é a necessidade de qualquer sujeito saber equilibrar as suas memórias desfavoráveis (periféricas) com as suas memórias favoráveis (essenciais) para manter ou reabrir as possibilidades de assegurar, no presente, a autorresponsabilidade pela condução do seu destino por si mesmo. Nenhum sujeito individual ou coletivo alcança o mais elevado nível de maturidade moral e existencial, a autorresponsabilidade, enquanto se autorrepresentar como vítima do passado, das circunstâncias ou do destino.

Portanto, não resta saída ao sujeito coletivo que não seja libertar-se mentalmente da historiografia oficial da vitimização para escapar ao falhanço, pobreza, atraso. O atual ensino, do básico ao universitário, e os demais meios e agentes culturais carecem de uma renovação profunda da sua conceção de memória histórica e social em nome da defesa da dignidade da cndição humana.

Compare-se, por hipótese, o modo como os povos europeus gerem as suas memórias de colonizados (por romanos, germânicos, magiares, celtas, árabes, entre outros) com o modo como os povos árabes, africanos, asiáticos ou latino- americanos da atualidade, e respetivas diásporas, gerem as suas memórias de colonizados pelos europeus. No primeiro caso, a dor narcísica foi transformada em fonte de fertilidade existencial através da valorização do legado colonial como pré-condição do desenvolvimento dos povos europeus. É assim que se ensina nas escolas ocidentais, desde a formação

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escolar elementar, o império romano, a colonização islâmica e as demais. No segundo caso, continua a impor-se a fixação na dor narcísica ao sobrevalorizarem o lado traumático da colonização europeia, ao mesmo tempo que interditam que a dimensão civilizacional favorável desse mesmo legado tenha lugar na memória dos antigos povos colonizados.

Pior. A partir das suas próprias historiografias, a memória histórica e social dos antigos povos colonizadores europeus ocidentais (os portugueses integram o rol) deixa-os reduzidos à condição de carrascos dos antigos povos colonizados, uma grosseira falsificação da complexidade do passado histórico. Nem sequer é discutível a existência de uma dimensão (bastante) favorável deixada no mundo pela colonização europeia terminada no século XX, sendo que a mesma é por demais óbvia incluindo para os próprios descolonizados.

Porém, tal como no Ocidente, em África, na Ásia ou na América Central e do Sul ela está proibida de entrar nas salas de aula, do ensino elementar à universidade, e tem a porta fechada na comunicação social e demais espaços da vida cultural e institucional. O conluio mental esquerdista anda a fabricar, em doses industriais, o desvio funcional depressivo das memórias dos povos. Se isso prejudica a sanidade mental das sociedades ocidentais, o impacto é ainda mais severo nas sociedades saídas dos antigos impérios ultramarinos europeus e respetivas diásporas, uma vez que os europeus ocidentais ao menos sabem gerir as suas memórias históricas e sociais enquanto colonizados mesmo que sejam desastrados enquanto colonizadores.

Feito o balanço, é na diferença da ideia de história que ainda assim reside a fixação sociopsicológica e sociocultural de uns na busca da prosperidade (os ocidentais, apesar de tudo um pouco mais distantes da tradição historiográfica marxista-leninista) e de outros no afundamento em frustrações, misérias, instabilidade, anomia (os não ocidentais e respetivas diásporas bem mais dependentes da gestão da memória histórica e social pela esquerda).

Nesse contexto, a nação portuguesa possui um potencial histórico e identitário fortíssimo para se transformar de mentalmente deprimida em pioneira de um renovado ideal de prosperidade acessível a todos os povos, a forma de voltar a dar novos mundos ao mundo que complemente um ciclo histórico com cinco séculos. Falta apenas um regime político com lucidez para o fazer. Não será seguramente a atual Terceira República.

Gabriel Mithá Ribeiro 
Vice-Presidente do CHEGA!