Descentralizar. Sim ou não? Entrevista André Ventura

Descentralização com ou sem regionalização? Porquê?

Nós confiamos na descentralização. É certo que é preciso um novo modelo, isso é ponto assente. Porém, o que não precisamos é de uma regionalização feita assim desta forma que apenas serve para criar tachos para os amigos e os conhecidos de alguns responsáveis. Não é esta a descentralização que queremos, nem tão pouco é este modelo que o país necessita. O que os portugueses precisam é de um modelo de regionalização bem desenhado que não se traduza na criação de mais posições intermédias ou, se necessária for a criação destas posições, ao menos que estas sejam com-pensadas com a eliminação de outras. O que não pode acontecer é criar-se um modelo que pese ainda mais aos bolsos dos contribuintes com a criação de tachos e que pouco se reflita naquilo que são as condições de vida das populações interiores.

Avançando o processo de regionalização, defende (ou não) a realização de um referendo? Porquê?

Caso se chegue a esse ponto de avanço do processo vamos, naturalmente, defender a realização de um referendo, porque acreditamos que os portugueses devem ter uma palavra a dizer nesta matéria. Aliás, já foi feito um referendo
anteriormente e não se fazendo agora seria de um enorme desrespeito por aquela que é a voz e a vontade dos portugueses.

Regionalização: um mito (ou realidade) de desenvolvimento do país e do interior em particular. Será que a definição de regiões administrativas é a panaceia para a resolução dos problemas do interior do país?

Nós temos de acabar com o mito de que apenas criando mais estruturas políticas conseguiremos canalizar mais recursos para o interior do país. O que é preciso é uma verdadeira política de descentralização e determinação para começar a criar mecanismos que apli-quem as vantagens obtidas com certos negócios na região onde essas estruturas estão e não nas cidades do litoral como acontece sempre. A esse propósito veja-se o exemplo que temos com a alienação das barragens em Bragança por parte da EDP. É preciso uma política feita por políticos de coragem que não tenham medo de fazer frente a interesses instalados em prol do desenvolvimento do interior do qual as populações irão beneficiar. Não podemos continuar a ter dois países: o do litoral e o interior, porque não temos dois tipos de portugueses. Todos os portugueses merecem ter as mesmas oportunidades, independentemente do local onde vivam.

Entrevista ao Jornal Linhas de Elvas de 19 Novembro 2020