Eu Estaline me confesso II

 Depois da minha primeira intervenção em que me confessei preocupado com o que vejo em Portugal não resisto a clarificar mais uns pormenores a bem da honra comunista. Tenho lido que há agora uns tantos pequenos e médios intelectuais portugueses que, segundo dizem, já nem se lembravam de mim e que apostam num comunismo fantástico que eu teria atraiçoado. É preciso descaramento. 

O comunismo soviético foi o único legítimo, autêntico e verdadeiro. Não podia ter sido outro. Rodeado de inimigos e com um país atrasado o que queriam que eu tivesse feito? Dar liberdades políticas aos partidos burgueses? Respeitar os direitos humanos e outras choraminguices contrarrevolucionárias? Apoiar os kulaks em vez de colectivizar as terras? Desistir de levar mão de obra para a industrialização? E onde é que a ia buscar? Ao exército? Não. Claro está que aproveitei os presos políticos, os de delito comum e os muitos indesejáveis. De outra maneira não teríamos durado muito tempo. Rodeado de traidores e de lunáticos não tive outro remédio senão ser duro. Se as massas tivessem dado ouvidos ao Trotsky ou aos anarquistas ucranianos o poder bolchevique não teria vingado. É por isso que quem não estava comigo estava contra o partido e contra mim. 

E digo-vos mesmo mais; quando o comunismo voltar começará no centro da Europa exactamente como previu Marx e não venham com idealismos, direitos humanos, direitos da oposição, pluralismo democrático e outras patetices. É assim a ditadura do proletariado. E na Europa não será diferente do que foi noutros lados. E digo mesmo mais; vai doer. 

A virtude comunista exige o terror revolucionário. Já Robespierre tinha percebido isso muito bem durante a Convenção. O Mao e o Pol Pot entenderam logo o que era imperativo fazer. E aquele rapaz venezuelano o Maduro parece não ter ilusões quanto a este ponto. Eu se fosse a ele já nem convocava eleições. 

O comunismo foi o que podia ter sido porque não podia ter sido outro. São as contradições espantosas que a observação da realidade material nos apresenta que ditam o que é necessário fazer e não o que a vossa cabeça quer. A realidade do comunismo soviético é a razão realizada na história e esta foi sempre o que podia e devia ter sido. Quem não percebe isto não é marxista ou seja, não percebe o que é o materialismo histórico. Dá mostra de oportunismo pequeno-burguês inimigo do partido e de convicções reaccionárias. Aposta num comunismo imaginário que apenas existe num local remoto do cerebelo de alguns idealistas pequeno-burgueses a vegetar nos cafés e nos salões. Se eles tivessem as mãos na ferrugem não pensavam assim. Quem os apanhou bem foi aquele intelectual reaccionário francês o R. Aron que acabou, sem o saber, por nos prestar um bom serviço. 

Estou farto de intelectuais burgueses a esnobar o que foi o comunismo enquanto eu estive à frente das operações. Querem o quê? Um comunismo de base como queria aquele imbecil do Lukacz que tivemos de mandar calar? Não querem lá ver que ele entendia que a consciência revolucionária estava na classe operária em vez de no partido seu legítimo e único representante? Havia de ser bonito se o tivessem ouvido. Qualquer dia chegávamos a uma capital europeia e em vez de uma secção organizada e disciplinada do partido tínhamos um bando de conselhos operários irrequietos e de sindicatos insubordinados aos berros uns com os outros. Esquecem-se que logo na I Internacional o próprio Marx não teve dúvidas quanto ao 

monopólio do partido comunista na condução das massas no caminho da revolução nem hesitou na aceitação da via armada; a arma da crítica (que é a teoria dele) nunca substituirá a crítica das armas, segundo palavras dele. Para bom entendedor… 

Sejamos sérios. Quem não pensa assim que tenha a coragem de se assumir como contrarrevolucionário. E mais, sem falsa modéstia, quem diz que se não lembra de mim vai pelo mesmo caminho. Devia lembrar-se de quem foi o principal construtor do comunismo. Devia era ter saudades minhas. 

É isto o que Estaline quer dizer lá no paraíso dos comunistas onde está. E vai voltar não para já mas não faltará muito. Os comunistas bem precisam dele. 

Luiz Cabral de Moncada