Eu Estaline me confesso

 Eu José Estaline nascido na Geórgia, e certamente vosso conhecido ressuscitei recentemente e estou muito perturbado com o que vejo em Portugal. O que vejo eu? O partido comunista sobrevive mas, pensa ele, à custa de abolir do programa a ditadura do proletariado e de apostar na corrida eleitoral. E quando ainda fala na luta de classes parece ter vergonha de espalhar aos quatro ventos a realidade sempre presente deste conflito em que deveria assumir o papel de vanguarda. E pouco mais faz do que trabalho sindical e vive de pequenas causas. A estratégia é de sobrevivência em vez de conquista. Que tristeza. Ao que isto chegou. O que é que o distingue dos partidos burgueses? Apesar de tudo o que me conforta é que segundo vim a saber lá onde estava (e que para já não vos posso dizer onde era) foi o único partido europeu a nunca falar do 20º Congresso do meu partido em 1956 já depois de eu ter morrido e das infâmias que aquele traidor do Khrushchov disse de mim a sacudir a água do capote e a pretender que não colaborou nas atrocidades que me imputaram. E também ouvi dizer que foi o único partido europeu a logo dar os parabéns àqueles corajosos rapazes que sequestraram o Gorbatchov e tentaram, infelizmente sem êxito, restaurar o comunismo em Moscovo em Agosto de 1991. 

Mas aquilo com que eu embirro mais é com o esquerdismo que se propaga a vários níveis da sociedade. Não são comunistas, são apenas socias-democratas de esquerda e snobes intelectuais. Bem dizia eu nos anos 30 que do que se trata é de sociais-fascistas cujo único propósito é impedir o avanço glorioso das massas trabalhadoras distraindo-as do seu objectivo final com as 

futilidades do racismo, do sexismo, das touradas, da eutanásia, do feminismo e da libertação sexual; parece que não pensam em mais nada. Diluem a luta de classes em objectivos passageiros e transformam-na num circo mediático onde fazem o papel de palhaços. Pudera, para eles a luta de classes é campanha eleitoral permanente. O que tem isso a ver com a tomada do poder? É que os pequenos e médios intelectuais portugueses confundem a tomada do poder com a tomada dos poderes e, claro está, falham no essencial. É triste. E os socialistas? Há muito que são os melhores gestores do capital. Os mais ricos preferem que sejam eles a formar governo. 

Tivesse eu o poder que tive outrora e já muitos estariam a fazer alguma coisa de útil nos campos de reeducação pelo trabalho. Sim, porque o que é preciso é uma transformação profunda dos esquerdistas actuais. Uma bandeira atrás da qual seguir, uma prática revolucionária infalível, uma doutrina inflexível em que acreditar, em vez de retalhos mal alinhavados de progressismo pequeno-burguês e de moralismos piegas e contrarrevolucionários. 

Devo confessar que nunca suportei que me tomassem por pouco esclarecido e inculto. Todas essas qualidades tinha eu de sobra mas nunca fraquejei naquilo que me propus. Não podia ter hesitações. Daí a minha alcunha que, modéstia à parte, sempre considerei honrosa e apropriada. Só tenho pena da incompetência dos meus serviços que não conseguiram que o Gide quando esteve na URSS só visse aquilo que eu queria que ele visse. Era a nossa honra que estava em causa. O Gorki esse, ao menos, só viu o que nós queríamos. Mas não pensem que fui alheio às questões culturais. Até conheci o Gramsci pessoalmente. Bem sei que é preciso ter hegemonia cultural nas sociedades europeias ocidentais. E lembro-me de ele me dizer que se considerava um «intelectual orgânico» do proletariado, afirmação profunda que 

muito me sensibilizou e apreciei embora lhe tenha dito que era preciso ter atenção de modo a não esquecer o principal. Hegemonia sim, mas dentro do partido e por seu intermédio. Fora dele não há comunistas e a dita hegemonia de nada vale. E quanto à Alexandra Kollontai, até gostava dela e a prova é que fiz dela embaixadora na Europa Ocidental como foi sempre sua ambição. 

Por razões que me desculparão resolvi não aparecer por enquanto. É que ando à procura de uma elite de vanguarda mas confesso que tem sido difícil. Não para mim que endureci a assaltar bancos na minha terra natal mas porque os homens de hoje já não são o que eram. Só precisava de um escol de profissionais de confiança. Tivesse eu cem deles e faria uma verdadeira revolução em Lisboa. Prometo voltar. 

É isto que Estaline diria se fosse vivo. As consequências a retirar são nossas. A esquerda nacional não percebe a mensagem. 

Luiz Cabral de Moncada