Hoje como no fim da Primeira República

Desde jovem habituei-me a observar a História não só como uma explanação cronológica dos nossos grandes feitos nacionais mas também como a maior e mais pródiga fonte de ensinamentos.

Se verificarmos com atenção, desde que retirando os devidos contextos e especificidades de época, os comportamentos, as falhas, os méritos, as ambiguidades, os vícios, e todas as demais posturas, erros ou virtudes, repetem-se ciclicamente.

Como disse antes, mudam algumas especificidades de época e sobretudo os seus actores, mas os desfechos, esses, repetem-se.

Esta introdução serve para sustentar o meu entendimento de que Portugal se encontra hoje como nos últimos tempos da Primeira República. O regime arrasta-se altamente viciado, podre, decadente, obsoleto, ineficaz, inviável, refém de determinadas castas políticas que lhe sugam o sangue até o deixarem praticamente seco e principalmente sem que se vislumbre qualquer possibilidade das gerações vindouras almejarem um futuro promissor.

A par desta inoperatividade material acresce-lhe uma promiscuidade cada vez maior entre as instituições políticas e a influência que as mesmas, parece-me a mim, querem aplicar sobre as instituições jurídicas o que mina completamente a sã separação de poderes que tanto te apregoa como fundamental num Estado de Direito.

Nesta amálgama de fragilidades, que confluem da cada vez menor qualidade dos agentes políticos (indesejada pelo povo mas exigida pelos que já fazem parte das instituições) e de uma crónica tendência nacional para que os portugueses sendo inteligentes se façam na sua maioria passar por parvos, assiste-se ainda a uma imprensa também ela cada vez mais dependente do Estado, o que lhe fere a sua imparcialidade e leva-a a confundir, na maioria das vezes, interesse público com interesse do público, informação com especulação, escrutínio com falta de ética e discordância com destruições gratuitas de carácter.

Juntando todas estas peças, o cenário é o ideal para que o país esteja, como está, novamente a saque de uns e sob a influência de outros, que fazem o mesmo que no seu semelhante criticam e se servem das dificuldades do povo para se manterem perto das esferas de influência, dando a entender que o defendem, quando na verdade a sua tragédia de vida, representa o seu maior seguro de manutenção.

Tudo isto, hoje, como nos últimos tempos da Primeira República.

Ora deste mero exercício de observação e contextualização histórica, a única diferença que se encontra face ao passado e que vai permitindo que esta República não seja derrubada como a primeira é o enquadramento geopolítico em que Portugal hoje se encontra.

Leia-se, como integrante da União Europeia, mas sobretudo como um Estado que observou nos últimos 40 anos um paulatino enfraquecimento das suas forças armadas, o que não lhe permite com a facilidade de outras épocas tomar facilmente posturas fracturantes.

É por isso que me espanta a teimosia que muitos teimam em vincar dizendo que está tudo óptimo, que o país está maravilhoso e tudo se irá manter na paz do Senhor.

 Não irá. É mentira.

O mundo está em mudança e com ela os regimes que como o português atingiram o limite da sua viabilidade, muito por culpa da corrupção e corporativismo negativo instalado. Todos os regimes que assim se encontrem acabarão por cair mais cedo ou mais tarde, mais ou menos pacificamente, com mais ou menos convulsão social, conforme o carácter do seu povo.

Não estamos sequer perante um desejo, um anseio, um assumir de necessidade ou uma mera possibilidade ou visão profética.

Sente-se no ar, no rosto das pessoas, no ambiente social do país. E os políticos em função sentem-no ainda que naturalmente não o admitam.

A cada 50 anos os regimes esgotam-se. O nosso, tal como outros que o antecederam, está já em processo de decomposição.

Rodrigo Alves Taxa