Marxismo? Porquê?

Há muitas razões para ser marxista. Fracas, mas há. Vejamos; o marxismo é a última edição da modernidade. Como tal, pretende não ser uma crença mas sim e apenas ciência. Parte de um conjunto definido e fechado de axiomas; o entendimento do desenvolvimento histórico baseado numa ontologia materialista, a dissociação entre a propriedade privada e a realidade social do trabalho, as contradições inerentes a esta realidade designadamente a concentração do capital com as consequências respectivas; aumento do desemprego, baixa do lucro e crise permanente do sistema capitalista à espera do empurrão final conduzido pelo partido.

É por pretender ser ciência que o marxismo sempre contou com muito mais adeptos entre os cultores das ciências exactas do que entre os das ciências humanas. Aqueles sentem-se em casa com o marxismo; uma explicação «científica» da realidade económica e social? Que maravilha. E que conveniente. Tudo fica explicado e compreendido e com chancela «científica». Já os homens das ciências humanas sabem que o sistema social é muito mais complexo do que julga o marxismo e não vão em cantigas pseudo- científicas redutoras da realidade. Querer reduzir esta a um conjunto de axiomas eivados de materialismo e encadeados num processo lógico-dedutivo não lhes passa pela cabeça. Equivale a querer meter lá um boné que não lhes serve.

Munido da certeza científica o marxista não aceita nem pode aceitar divergências. É que basta um grão de areia naquela engrenagem para que todo o edifício caia como um castelo de cartas. Se os axiomas de que parte são falsos o marxismo desfaz-

se e dele só fica um vago discurso moralizante que de original nada tem.

A ciência é certa e quem a não segue labora em erro ou é incapaz. Se labora em erro o seu lugar é no campo de reeducação se é incapaz o seu lugar é no hospício. Não há oposição, há inimigos movidos por cavilosos interesses «de classe» que devem ser eliminados ou loucos e dementes. Na visão do marxismo a liberdade não faz sentido. Pelo contrário, a exactidão científica tem de ser quotidianamente comprovada e daí que o comunismo só seja possível numa sociedade vigiada, controlada e rigidamente disciplinada. O partido comunista chinês é especialista nestas matérias mediante meios informáticos. O comunismo é por natureza um sistema concentracionário. O seu modelo não é o de uma sociedade aberta à diferença e ao pluralismo baseada no exercício da liberdade. O modelo é o reformatório ou a colónia penal mesmo que dourada.

O que não é possível é ser e não ser marxista ao mesmo tempo ou sê-lo em maior ou menor medida. Não é intelectualmente sério. Pode ser-se mais ou menos liberal, social democrata, democrata-cristão ou conservador ou combinar estas tendências políticas mas não se verifica o mesmo com o marxismo. É que aquelas tendências políticas não são nem pretendem ser ciência. São tendências e nada mais. Como tendências que são pressupõem a diferença e alimentam-se dela. Não exigem a adesão a um catecismo nem uma profissão de fé.

A certeza que o marxismo reivindica é a sua força mas ao mesmo tempo a sua fraqueza. Não há certeza científica que resista à confrontação com os factos e a realidade da evolução histórica. O marxismo ficará para a história como um simples paradigma de compreensão das coisas a juntar a tantos outros que há muito deram o que tinham a dar como a contra-reforma

católica, o ultramontanismo monárquico, o regalismo, o conservadorismo tory e os fascismos. Paz à sua alma.

Luiz Cabral de Moncada