Não tenham a menor dúvida

 A esquerda nacional está em transe. Não sabem como lidar com o Chega. O protagonismo que o partido tem hoje já a perturba profundamente. Educada no politicamente correcto a esquerda nacional, seja ela qual for e mesmo certa direita dela tributária, não consegue compreender que o fenómeno do Chega chegou para ficar porque exprime uma atitude de descrença no sistema político nacional alienado em dois partidos dominantes cuja única preocupação é conquistar o Estado e cuja única esperança é viver dele. A multidão que apoia o Chega tem raízes profundas na história política portuguesa desde o levantamento de Lisboa em 1393, às revoltas contra o domínio filipino, à Maria da Fonte falsamente identificada nos liceus como um movimento «progressista», até ao verão quente de 1975. A esquerda duvida. Leiam A. Gluksman num ensaio brilhante sobre a alegada espontaneidade popular em que dá como exemplo precisamente o verão quente português. Não conhecem? Procurem. 

Obviamente que a esquerda nacional vive do vanguardismo. A revolta popular é, em seu alto entendimento, apenas populismo. Pudera não está enquadrado pelas baias do marxismo e qualquer movimento de base a perturba porque o não controla. Já Lenine no 2º Congresso do então partido social-democrata russo assim opinava a propósito da votação do art. 2º dos estatutos. Como tem alguma vergonha intelectual, a pouca que a tem, a esquerda tenta refugiar-se em desculpas enviesadas para ostracizar o Chega. Aí estão elas; é que a democracia não está preparada para tamanhas avançadas, é que uma solução governativa sendo em abstracto possível é na prática horrível porque vai despoletar 

cavilosas forças incontroláveis de racismo e xenofobia, etc… Tudo isto iria enfraquecer a frágil democracia alimentada pelo PS e pelo PSD. 

Tudo isto é ridículo, Se a democracia tem fragilidades em Portugal àqueles dois partidos se deve. Na sua desmesurada ambição de viverem do Estado afastaram o eleitor, na sua ambição de satisfazerem clientelas desagradaram ao português médio que não vive do Estado e que labuta pelo pão de cada dia. Na sua manifesta falta de solidez ideológica e preparação cultural granjearam o desprezo de muitos, mesmo dos que neles votam. Quem julgam eles que o português médio é? Um saloio à espera de ser esclarecido por universitários lisboetas formados à pressa? Um salafrário na mira das benesses do poder? Um catecúmeno mental à espera do baptismo socialista ou esquerdista? 

O desconhecimento do país que caracteriza a esquerda nacional é confrangedor. E é isso que a irá deslegitimar. O eleitor não lhe perdoará. Acentuar isto é populismo? Este epíteto só demonstra a sua incompreensão de um fenómeno que vem das profundezas da consciência cultural e política dos nossos concidadãos e que, note-se, é muito mais ilustrada do que pensa a pátria esquerda e que não vem à tona pela primeira vez. 

Sempre foi assim. Entre a realidade e o modelo abstracto a esquerda prefere o modelo. Se a realidade nele não cabe não há problema; encolhe-se a realidade. Tudo serve; inventa-se um racismo inexistente, uma xenofobia imaginária, um fascismo à medida dito agora «fascizante», coisa que ninguém sabe o que é, uma atitude anticonstitucional e sobretudo uma tentativa de colagem a direitas aparecidas em países em que as condições sociológicas e políticas para a extrema. direita são únicas como a França, a Alemanha e a Itália. Tudo serve, dizia, para esconder a realidade. A realidade é que o eleitor está cansado de ser aldrabado e manipulado. O espaço público dentro do qual é livre 

de optar está diminuído pelo barrete ideológico que lhe é enfiado há décadas. 

Se eu fosse de esquerda hoje em dia tinha vergonha. Vergonha de me poderem tomar por conivente com um programa de adulteração e deseducação da opinião pública. Vergonha por me poderem confundir com um semeador de ilusões e divulgador de ideias feitas e conclusões falsas. Vergonha pela mediocridade que me assacariam. 

Prefiro a (moderada) inconoclastia. Os portugueses adeptos do Chega compreendem perfeitamente o que quero dizer. 

O que esse passou nos Açores não significou tanto para a esquerda quanto quer dizer. Foi apenas um pretexto. O que lhe dói é uma direita democrática portuguesa que de nada é herdeira, que nada deve a ninguém e que olha para o futuro em vez de olhar para o passado. 

Não tenham a menor dúvida. A esquerda vai persegui-los. No emprego, na escola, nos jornais, nas associações e em toda a parte e vai chegar aos vossos filhos. Vai discriminar-vos e tentar achincalhar-vos sempre que puder. É a sua sobrevivência que está em causa. 

Luiz Cabral de Moncada