Normalização do erro

O fenómeno político é frequentemente confundido com “comunicação política”. É intrínseco à natureza do ato político que a comunicação seja eficaz.

Isto é sabido desde sempre e desde sempre que a comunidade política lida com a eficácia da comunicação. Kenedy foi à Alemanha da Guerra Fria dizer em alemão que era berlinense. Por entre a afirmação da política Americana para a reconstrução da Europa, a opção pela internacionalização da economia alemã ou a separação da Alemanha do Oriente, interpretações várias fizeram desse discurso um dos mais célebres de sempre.

Sem, contudo, qualquer eficácia. Importante, mas ineficaz.

Reis com problemas de dicção, Presidentes que vulgarizam congéneres com esticões de braço, a afirmação de uma nova geração de líderes mundiais faz-se pelo uso de meias coloridas, palavras aguerridas, cortes de cabelo, ou gestos repetidos.

Nada de novo.

Aquela que é verdadeiramente a grande novidade do Século XXI, também já o sabemos, é o acesso à informação.

O caso Português, por exemplo, é paradigmático.

Até 1992 Portugal tinha essencialmente 2 canais de televisão. Os mais possibilitados acediam a canais estrangeiros com pratos de parabólicas pregados nas varandas ou nos telhados e viam também as notícias da RAI, da TF1, BBC ou TVE.

Além disto, tinhamos a imprensa escrita com alguns diários incapazes de fazer opinião e dois semanários notórios que faziam notícia durante uma semana até à próxima capa.

E durante essa semana não se falava de outra coisa. Se a capa era boa, a semana era boa. Se a capa era má, a semana era péssima.

E são inúmeros os estudos que ligam estes dois fenómenos. O tempo e a forma.

O tempo, antes, era lento; durava. O bom durava mais tempo. O mau durava mais tempo.

A forma, por isso, era cuidada para que a eficácia das palavras se consolidasse com o tempo que era muito.

Já todos sabemos também que o acesso à informação é essencial à realização da democracia. Certo.

Ministros da Propaganda tornaram evidentes os cuidados com a informação e celebrizaram regimes antidemocráticos. Departamentos de Estado eram criados apenas para controlar o âmbito e extensão da divulgação de informação, e temos hoje, todos, por adquirido que menos informação significava menos democracia.

E daí o surgimento de correntes políticas e culturais que lutaram (e bem) pelo acesso à informação, na premissa de que sem ela seríamos apenas joguetes no palco da sociedade. Marionetas da comunidade política. Do sistema.

A sociedade, agora aberta à informação, tem a percepção de que esse facto, por si só ou aliado a uma ou outra virtualidade de algumas igualdades que se vão “concedendo”, julga o Poder como evoluído, democrático, progredido.

Lamento discordar, mas há uma nova “normalidade”. É o resultado da “normalização”.

Não quero que o leitor julgue mal a intenção deste texto.

Por um lado, ao usar a palavra “normalização” não quero dizer nada mais do que ela significa literalmente. Tornar normal.

Por outro lado, é que prezo muito todas as liberdades adquiridas que são, mais do que constitucionais, condição do ser humano. Condição da sociedade.

A questão é que a ausência de um elemento é tão letal como o seu excesso.

Não. Não estou a dizer que informação a mais é letal para a Democracia. Não estou a dizer isso nem o contrário. Estou a dizer outra coisa.

A ausência de um elemento como a água gera no nosso organismo uma deficiência tal que nos mata, mas também ouvimos frequentemente da comunidade científica que qualquer substância pode ser venenosa desde que em excesso porque o que faz o veneno é a quantidade e não a substância.

E é aqui que reside o busílis deste texto.

Como dizia, já está mais do que dissecado que as novas tecnologias vieram transformar a Cidadania essencialmente por oferecerem um volume maior de informação mas também por disponibilizarem mais ferramentas de ação à sociedade civil.

Lembremo-nos de como começou a Primavera Árabe. Um pequeno grupo de instigadores estrangeiros promoveu o fim de vários regimes apenas com meia dúzia de trocos e uns telemóveis.

Redes terroristas organizam-se em aplicações móveis que oferecem secretismo nas telecomunicações.

Dados de eleitores são usados ao extremo para que propaganda política seja disseminada com tamanha precisão quanto o estado de espírito de uma pessoa naquele preciso instante.

Ora, neste ponto, a matéria das novas tecnologias e a sua relação com o poder político não está suficientemente estudada.

É que parece cada vez mais evidente que a consciencialização da classe política para o facto de que a disseminação da informação é um fenómeno praticamente incontrolável, remonta-nos àquele período de que falava no início do texto, por comparação.

Hoje, o espaço não tem fronteiras, a forma já pouco interessa e o tempo é imediato.

E é sobre o tempo que me debruço neste texto.

É evidente que se um indivíduo, um organismo, está consciente de que o tempo é imediato, o nível de controlo que pode exercer sobre um evento politicamente relevante tem hoje um nível de precisão cirúrgico.

Metaforicamente gostava que o leitor imaginasse uma folha de papel branco e deixasse nela cair uma gota de água. É evidente que neste caso há um realce claro de apenas uma gota de água naquele espaço branco. Se tivesse que descrever esta folha diria que está seca mas manchada com uma gota de água.

Mas se toda a folha estiver encharcada, a folha está apenas molhada.

Está normalizada.

Decifrando.

Se a folha for um cenário político e a gota um problema, o que a classe política já percebeu é que basta encharcar a sociedade de outros problemas para que aquele, o que teria a virtude de derrubar ou fragilizar um governo ou um indivíduo, passe a ser insignificante.

Pois agora olhemos para o cenário político português e respondamos todos a uma, apenas uma, questão.

Se alguém lançasse a discussão sobre a obrigatoriedade de utilização de uma aplicação móvel do Estado enquanto se deveria debater um Orçamento de Estado;

Se alguém, com uma auditoria ao maior escandalo financeiro na era democrática à porta, substitui o auditor;

Se alguém dirige um organismo do Estado com várias pessoas com relações de parentesco em vez de apenas uma;

Se alguém tem, sob a sua tutela, um furto militar esquecido entre demissões, suspeitas e processos, com o ressurgimento do material roubado;

Se alguém substitui altos dirigentes do Estado que navegam entre o Governo e o Banco de Portugal, enquanto se discute se deveria ou não estar numa lista de um candidato a um clube de futebol;

Se alguém decide injetar dinheiro num banco por resultados do ano anterior justificando com uma pandemia deste ano;

Se alguém substitui a seu desejo titulares de cargos públicos que, por raridade, são vistos como duros com os maus;

Se alguém por várias vezes vê membros do seu executivo sob suspeita nas teias da justiça;

Se tudo isto fosse assim, a pergunta seria:

Está um pingo na folha, ou a folha está molhada, normalizada?

Tiago Sousa Dias, Direção Nacional