O breviário da esquerda

 Interrogava-me em tempos com frequência sobre os fundamentos da esquerda no nosso país. Não futurava grande coisa. O marxismo? Não. É que depois da queda do muro de Berlim e sem as posições oficiais do saudoso camarada Suslov ser marxista é complicado e exige muito esforço. Com efeito, a teoria marxista é particularmente infeliz num contexto sócio-político marcado pelo pluralismo democrático, pela fragmentariedade social e pelo pós-tradicionalismo dos valores. Em suma; na sociedade pós-moderna em que vivemos o marxismo que foi a última edição da modernidade está como um peixe fora de água. Para resistir refugiam-se alguns numa visão troglodítica das coisas alicerçada no caviloso poder dos grandes agrários e dos monopolistas que teima em resistir a morder a nuca do povo trabalhador cuja vitória final é obviamente difícil mas certa. Mas isto já não pega. 

Do que se trata então? É muito simples. Trata-se de uma visão exclusivamente moralista das coisas e que acaba no mais obtuso maniqueísmo. De um lado está uma direita amoral apostada em aproveitar as desigualdades sociais para delas viver e prosperar sem ideologia e sem cultura e apenas cinicamente oportunista. Do outro uma esquerda cheia de boas intenções, crente nas benfeitorias do serviço público, culta, ilustrada e determinada. Nem Álvaro Cunhal nessa obra lamentável que foi A Superioridade Moral dos Comunistas teria dito melhor. 

Tanto moralismo prolonga-se na posição quanto ao serviço público. Evidente é que a esquerda nacional considera que o serviço público é exclusivo das entidades públicas que ela 

controla e manipula. Que o serviço público possa ser levado a cabo por entidades privadas não é possível. A muito tardia admissão do sector privado no apoio que está pronto a dar e desejoso de o fazer aos infectados pela pandemia é demonstração clara do que digo. Curar os infectados é exclusivo dos hospitais públicos. Tudo quanto vier do sector privado é indesejável. A esquerda nacional já percebeu que são as empresas privadas que dão lucro e geram emprego. Demorou gerações a entender esta evidência. Mas não consegue ir mais além. Que o sector privado possa prestar serviço público é ideia insuportável. E porquê? Porque o não consegue controlar que é como quem diz, associar à moralidade que julga dela exclusiva. 

A fundamentação das esquerdas é, portanto, moral e nada mais. Sem arrimo noutro o discurso é moralizante. Numa época em que quem se preza já não diz que é marxista, em que é R. Aron e não Sartre quem vai ao leme, em que a filosofia analítica inglesa destruiu completamente qualquer pretensão de verdade do marxismo e em que o linguist turn e a hermenêutica filosófica dizem muito mais do que a mais-valia e a teoria da exploração, nesta época, dizia-se, o que resta à esquerda? Brandir o estandarte. Qual? O da moral obviamente. Não tem outro. E é sempre o mais simples. A direita é sempre o mal. É fácil, é barato e dá milhões. 

Só que a moral por si só é pouco para alicerçar qualquer pretensão de hegemonia cultural. Sobretudo num contexto pós tradicional e pluralista. Um breviário moralizante não chega. Desde logo porque a moral não é exclusiva da esquerda. E então de alguma esquerda nacional maioritária depois de anos de compadrio, corrupção e negociatas, nem se fala. 

A moral social renova-se todas as épocas alimentando-se de contributos em permanente transformação assim dando sentido e fundamento à estrutura social como tão bem identificou M. 

Weber. Já existia muito antes da esquerda e vai sobreviver-lhe sem qualquer dificuldade. Acresce que a moral social no nosso país embora tenha evoluído vertiginosamente sobretudo no âmbito da família está alicerçada em bases sólidas e não se impressiona com os preconceitos de um conjunto heterogéneo de vanguardistas alegadamente aculturados nem com os escassos raciocínios moralizantes que lá conseguem bolsar de vez em quando. A conclusão é esta; a moralidade exacerbada precisa de uma imagem de radicalismo. E ela está aí e tem um nome; é o Chega e o fascismo está à porta. 

Mas como já aqui disse, não tenham ilusões. Nada pior do que moralistas assanhados. Deixam de pensar e saem-se com as maiores inanidades. Uns querem ilegalizar o Chega, outros sanear os ditos fascistas, outros ainda silenciá-los. A esquerda nem hesitará em defender os maiores atropelos aos direitos subjectivos dos cidadãos e às liberdades políticas fundamentais em nome de uma alegada moralidade. Os direitos fundamentais servem apenas para a esquerda e nunca para os seus adversários. Dizia Robespierre que a virtude exige o terror. 

Mais realismo e menos moralismo. Mais raciocínio e menos preconceito; eis os meus sinceros votos para a esquerda nacional. Aproveitem agora o confinamento. 

Luiz Cabral de Moncada