O CHEGA e o alegado populismo

Verificamos que a classe política portuguesa põe ao Chega a alcunha de populista. Os jornalistas seguem-lhe os passos. Não me admiro. Conhecidos os dotes intelectuais e culturais da maioria da classe política portuguesa outra coisa não era de esperar.

    Mas não tem razão. Vejamos; o que é o populismo?

    O populismo é uma estratégia política muito utilizada em período eleitoral e fora daí e que tem por objectivo diminuir o espaço público próprio do exercício da crítica. Para tal serve-se de um conjunto de dicotomias básicas apostadas no confronto entre nós e eles, capitalistas e trabalhadores, reaccionários e progressistas, talassas e republicanos, etc… Todos conhecemos isto muito bem. A vida política portuguesa alimenta-se do populismo pelo menos desde o fim da monarquia constitucional. O objectivo do populismo é reduzir a autonomia crítica e barricar a vida política. Aposta no «pronto a pensar» ou seja, na resposta imediata e aderencial que evita o problema e avança a (pseudo) solução. Elimina o pensamento e substitui-o pela frase feita e transforma a razão num catecismo. Isto é que é o populismo. Pode ser de esquerda, de direita ou do centro. Todos sabemos muito bem quais são os principais partidos populistas no nosso país.

    Ora o que o Chega pretende é precisamente o contrário; introduzir a dúvida quanto à bondade do sistema de dois partidos dominantes que nos governam, tal como no fim da monarquia, em coligação ou sem ela, e que tem permitido todos o tipo de desmandos que conhecemos. O Chega questiona a legitimidade do sistema partidário que temos. E a abertura pelo Chega proporcionada ao exercício da crítica independente está a prestar um grande serviço à democracia portuguesa. Bem vistas as coisas, o Chega é precisamente um dos poucos partidos portugueses que não é populista.

    O Chega é um partido conservador no sentido em que confia num conjunto de valores e instituições que deram resultados e que não devem ser escorraçados; a família como base da sociedade e da educação moral, a iniciativa e propriedade privadas como base do modelo económico, a igualdade entre todos os cidadãos eliminando insuportáveis privilégios de minorias, a educação livre como um direito em vez de um monopólio do Estado alicerçado em propostas de uma pequena burguesia radicalizada com acesso privilegiado à comunicação social, o reforço da descentralização, o pluralismo na informação em vez do vergonhoso facciosismo a que assistimos, a restituição do parlamento ao seu papel central como órgão legislativo, a efectiva responsabilização do governo perante ele, o aperfeiçoamento dos meios de participação política directa dos cidadãos, individualmente ou em grupo, uma legislação eficaz no combate ao crime económico,  designadamente punido o enriquecimento ilícito, e aos crimes hediondos, entre tantos outros pontos de honra como, p. ex., a desgovernamentalização da Administração, a redução das despesas públicas correntes excedentárias e o desagravamento fiscal da classe média. É isso populismo? Não me façam rir. Se a classe política portuguesa e os jornalistas tivessem passado mais tempo a ler e a cultivar-se saberiam que o populismo é precisamente o contrário disto. Claro está que aquelas propostas atemorizam muita gente. Pudera.

    O que o Chega quer é a reforma da democracia portuguesa. Sucede que a simples presença do Chega no parlamento e fora dele incomoda profundamente muita gente. Porque precisamente lhes toca nos pontos que mais lhes doem e faz tremer as fundações do sistema partidário em que vivemos. Não é refém de ninguém e é por isso que induz um discurso crítico e inconformista relativamente à nossa realidade partidária. E ainda a procissão vai no adro.

    Populista o Chega? Populistas são os principais partidos políticos portugueses. Ao chamarem populista ao Chega vêem-se a si próprios ao espelho.

Luiz Cabral de Moncada