O CHEGA é um fenómeno


Tanto é que desnorteia a esquerda, como já aqui várias vezes disse, e incomoda a direita acomodada. Os queixumes da direita inserida no sistema político em que vivemos são de lamentar pelo pouco esclarecimento que revelam. Tenho lido alguns vindos de diversos quadrantes. Só me vou referir aos das melhores proveniências que conheço e respeito por terem garantia de qualidade. Aos outros não porque nem sei quem são os respectivos Autores mas não devem ser grande coisa porque se fossem saberia quem eles eram por já ter lido obras assinaláveis da respectiva autoria sobre os assuntos de que abundantemente falam. Mas por serem insignificantes para mim não existem.
Há quem se diga preocupado com fenómenos antissistémicos. Não tem razão. O Chega é marginal relativamente aos partidos políticos institucionalizados mas não relativamente ao modelo político democrático de base parlamentar em que vivemos. O Chega é hoje uma peça essencial no Estado-de-Direito democrático porque dá voz aos que a não queriam ter e aos críticos dos moldes em que a representação política tem sido lograda no nosso país. E mais, aposta na reforma da democracia política especialmente na do sistema de governo. Logo, não é uma força antissistema, pelo contrário, pois contribui para a melhor e mais abrangente integração política ou ainda não tinham percebido que a direita conservadora existia em Portugal? Parece que não. Ao reformar o sistema contribui para ele ou não sabiam que o isolamento do sistema não é completo e que, pelo contrário, se alimenta de contributos exteriores?

Outros, mais estrangeirados, comparam o Chega com a direita radical que cresce em vários países europeus, nomeadamente na Alemanha. É normal pois que não percebem o que se passa no nosso país e, portanto, invocam por analogia o exemplo do estrangeiro. Só que esquecem que a direita radical alemã nunca teve nem tem nem terá nada a ver com a direita democrática portuguesa pois que se alimenta de conjunturas e de raízes culturais que são dela específicas. Seria preciso explicar-lhes que não há uma direita mas várias direitas e que medram em condições próprias e irrepetíveis e ainda que algumas funcionam por reacção e convicção e não por escolha doutrinária. As direitas não são oriundas de uma cartilha de dogmas abstractos exportáveis para diversas latitudes como o marxismo. Politique d ́abord. Sabem o significado disto?
Sabem porque é que o Chega é um a realidade política cada vez mais forte? É por vossa causa. É o resultado do vosso fraco discernimento e da vossa incapacidade de fornecer explicações e soluções adequadas à representação de muitas forças vivas e remexidas que pululam na sociedade portuguesa. A campanha de normalização e estupidificação ideológica que venderam durante décadas já não serve. Os tempos são outros e estão a perder o comboio. Mas a culpa do vosso atraso não é senão vossa.
Luiz Cabral de Moncada