O CHEGA é um partido anti-sistema?

Foi esta a conclusão a que chegou R. Marchi num livro recentemente editado sobre o Chega. Tem razão? Tem.  

O que se entende hoje por sistema? Nada certamente de igual ao que por tal se entendia ainda não há muito tempo. Crescemos todos sob a égide do sistema democrático. O poder legislativo era delegado pelos eleitores em deputados que os representavam na Assembleia da República e conservavam o poder de fazer leis nas suas mãos e a oposição fiscalizava efectivamente a actividade governamental.  Os canais de comunicação entre os eleitores e os eleitos estavam sempre em aberto e funcionava a publicidade democrática. Esta tinha o alcance de esclarecer e alimentar a opinião pública. O debate político era racional e baseava-se em argumentos válidos e a imprensa tinha um papel essencial no trânsito das ideias e na formação das convicções. Todos declinávamos nesta gramática. Apesar de algumas tentativas antidemocráticas a realidade é que, melhor ou pior, a partir do 25 de Novembro de 1975 as coisas acalmaram e a vida política normalizou.

    Mas tudo se modificou sem darmos por isso. O sistema democrático-parlamentar foi substituído por uma caricatura. Da modernidade passámos rapidamente para a pós-modernidade e isso alterou tudo. A realidade constitucional ganhou à Constituição. O poder de decisão saiu da Assembleia por via dos grupos parlamentares e foi direitinho para a sede dos partidos políticos. Os grupos parlamentares são órgãos do partido na Assembleia e não órgãos da Assembleia como devem ser. Quem decide é o partido maioritário e a Assembleia transformou-se numa caixa de ressonância das opções partidárias tomadas fora dela. O partido é o novo príncipe do sistema político português.

    A lógica política deixou assim de ser racional. Passou a ser conjuntural e eleitoralista O argumento foi substituído pela conveniência dependente da sondagem. Navega-se à vista. O debate racional não tem importância alguma e pretende-se mesmo afastá-lo por indesejável e até perigoso.    

Tudo isto é apenas a ponta do iceberg. Nestas condições os políticos transformaram-se obviamente num grupo de arrivistas e oportunistas, quanto mais analfabetos melhor porque alheios à razão, sem escrúpulos porque irresponsáveis perante os eleitores, arredios à cultura política e prestando contas apenas ao partido onde fazem carreira sempre de olhos postos em sinecuras. Nada de espantar que o mundo empresarial público seja o destino certo dos políticos seniores e que as famílias deles se eternizem no poder. Trata-se de uma consequência inevitável do facto de a responsabilidade política se ter invertido; passou a funcionar ao contrário. Em consequência, os canais de comunicação entre eleitores e eleitos acabaram pelo que as questões políticas interessam cada vez menos à maioria dos cidadãos porque visam apenas satisfazer nichos de modo a atrai-los a votos e a formação ideológica e cultural é execrada. A opinião pública deixou de existir. O que existe é um chinfrim de exigências minoritárias em bicos de pés. O modelo do cidadão que se pretende é o votante infantilizado travestido de contribuinte anestesiado logo servido por um sistema de ensino lúdico que garante ser ele incapaz de pensar e de exercer a crítica e que tem por objectivo transformá-lo num novo ignorante mesmo que alfabetizado e informatizado. A imprensa logo correspondeu a esta profunda modificação. Em vez de jornalistas temos publicitários e em vez de opinion makers temos vedetas. O absentismo não é mistério nenhum. É mesmo natural.

É este o novo sistema; pós-moderno e não moderno.

É contra ele que o Chega se afirma. E é o único a fazê-lo. Nesta acepção e apenas nela o Chega é um partido anti-sistema. Porque defende a restituição do poder de decisão a quem deve pertencer, a participação política dos cidadãos sem a tutela partidária num debate racional alargado a toda a sociedade, a valorização do papel da opinião pública, um ensino virado para a preparação do cidadão para a vida adulta em vez de para o infantilismo, a moralização da vida pública mediante leis draconianas em matéria de trânsito político-empresarial e a profissionalização dos gestores públicos entre tantas outras exigências que os militantes bem conhecem.

É isto um programa extremista? Claro que não. Trata-se é de um programa conservador no exacto sentido do termo; manutenção e desenvolvimento de valores e boas práticas que deram resultados durante décadas e que foram abandonadas pelo sistema político-partidário actual do nosso país que, na sua ânsia de tudo reconstruir, tudo destruiu.

Isto faz do Chega um partido anti-sistema? Certamente que sim. É um partido contra um sistema pós-moderno que adulterou por completo e com a conivência de toda a classe política e da imprensa o regime democrático e racional em que vivemos alguns anos.

É por isso que os militantes do Chega estão no bom caminho. A mediocridade, a estupidez, o carreirismo e a falta de formação intelectual e ética não se podem manter durante muito tempo. As experiências históricas do nosso país dizem-nos isso mesmo. Depois do devorismo veio a regeneração, depois dos desastres que foram a I República, o salazarismo e o estalinismo vieram bons tempos. E vão regressar só que desta vez com a presença do Chega e pela mão dele. Os cães já estão a ladrar mas a caravana passa.

Luiz Cabral de Moncada