O comunismo; um sonho de uma sociedade que ainda não existiu?

 A propósito dos cem anos do Partido Comunista português aparece hoje um artigo na primeira página de um semanário em que o jornalista, que não sei quem é nem quero saber, lança em tom comovido a seguinte mensagem; o comunismo é uma sociedade fantástica que nunca foi realizada mas que continua ser um belo sonho a alimentar a imaginação e os bons propósitos dos contemporâneos e que amanhã, quem sabe, poderá ver a luz do dia, devendo servir de exemplo aos vindouros de modo a redimir os pecados da sociedade capitalista. 

O comunismo e a sociedade por ele engendrada nunca existiu? Existiu sim senhor a acabou sem glória. Existiu o que existiu porque não podia ter existido outra coisa a não ser na idealista, simplória e pouco esclarecida cabeça da esmagadora maioria dos jornalistas portugueses. 

Nem me vale a pena explicar-lhes o que foi o comunismo porque eles não podem perceber. Dirijo-me é aos leitores para que se não deixem levar por afirmações néscias e tendenciosas. O comunismo foi o que podia ter sido. Foi o resultado de um processo histórico ou seja, do desenvolvimento das contradições históricas alegadamente presentes na realidade das sociedades burguesas e capitalistas da primeira metade do século XX em conformidade com um dado lógico que é a dialéctica materialista pretensamente científica. É por isso que é um processo dialéctico e histórico ao mesmo tempo. Significa isto que o que se passou historicamente não é senão aquilo que tinha de acontecer nem poderia ser de outro modo ou a história a final não era 

determinada pela base económica ou então era a dialéctica que estava errada. Não se pode sair daqui. Dizer que o comunismo foi um sonho bonito que alguns atraiçoaram e que, se em boas mãos, poderia seguir outro rumo mais auspicioso é uma imbecilidade. Mas como? Vamos emendar a realidade? Vamos corrigir a dialéctica? Vamos modificar a história de acordo com a nossa vontade? Oh doutores jornalistas nunca leram o Anti-Duehring (escrevo com e porque já não se utiliza o trema em português)? Tenho a certeza que não. Nunca leram aquela lamentável cartilha que é o Materialismo e Empiriocriticismo do Lenine? Estou certo que não. Mas se tivessem lido ao menos não confundiam o comunismo com os vossos desejos pequeno-burgueses. 

O que os jornalistas portugueses adeptos do «autêntico» comunismo querem é corrigir a história e negar a preceito a dialéctica. Estão embaraçados porque já não conseguem esconder os crimes hediondos dos regimes comunistas, como faziam ainda há trinta anos, nem o democrático culto da personalidade de Estaline, nem as atrocidades feitas por esses monstros que foram Mao, Pol Pot e Fidel Castro, nem o muro anti-fascista de Berlim. Vai daí idealizam à socapa um comunismo alternativo que ainda não existiu mas que, dizem eles, existirá e que, como diz o incontornável J. de Sousa, está cada vez mais perto. 

Há muito que sabia que a estupidez humana não tem limites. E que a ignorância também não. Negar o que foi a triste realidade histórica e criminosa do comunismo em nome de uma miragem ideal é optar por um emaranhado de utopias pequeno-burguesas presentes na cabeça de uns jornalistas ignaros que povoam Lisboa. 

Dizer que o comunismo ainda não existiu é insultar Lenine, é insinuar que ele se enganou ao querer em Abril de 1917, ao chegar a S. Petersburgo num vagão blindado expedido da Suiça pela 

polícia do Kaiser, que a revolução bolchevique podia ser de imediato e que Estaline se equivocou com o culto da personalidade e com aquela tese brilhante do socialismo num só país, é desdizer aquela lamentável e cretina afirmação de Cunhal segundo a qual no nosso país nunca existiria democracia parlamentar. Pudera, ele queria o comunismo amanhã em Portugal e se lhe fossem dizer que o comunismo verdadeiro ainda estava para vir e com cores diáfanas ele nem teria hesitado em vos chamar fascistas e sabe-se lá que mais, dependendo do poder de que dispusesse no momento. 

Oh jornalistas. Sejam sérios, posto que a seriedade é suposto atributo da vossa profissão como, creio eu, vos terá sido ensinado. Tendes o irrenunciável e fundamental direito a exprimir a vossa opinião mesmo que seja asnática. Mas as asneiras não deixam de o ser lá porque as dizeis. É que os vossos leitores também têm direito a criticar-vos e até a dizer-vos que estão fartos de tanto preconceito e ignorância. 

Luz Cabral de Moncada