O Dono Disto Tudo

Não é novidade e o recente episódio da Autoeuropa apenas o vem confirmar: António Costa é uma espécie de Dono Disto Tudo, dentro do partido e no próprio Governo e também não é novidade que situações dessas conduzem ao surgimento de contestações internas, umas ideológicas, outras de motivações mais egoístas.

Há uma guerra ideológica no PS. A aproximação de Costa a Marcelo, e consequentemente a Rio, só o deixaram mais à vista. A ala mais à esquerda e neste caso, extremamente mais à esquerda, liderada por aquele que será eventualmente o próximo líder socialista, Pedro Nuno Santos, por muito que isso custe, entre outros, a Medina, não aceita que o Partido Socialista apoie nas presidenciais um ex-presidente do PSD e, sobretudo, não aceita a forma como tudo se processou, nomeadamente o facto de não terem sido ouvidos. Existe a sensação, e eu acredito verdadeiramente nisto, de que tudo terá sido combinado entre António Costa, Ferro Rodrigues, Carlos César e o próprio presidente Marcelo, tudo à revelia do partido, manobra demonstrativa de que o 1º ministro se considera mesmo o DDT no partido.

A estratégia de Costa prevê duas situações. Primeiro relativamente às presidenciais, a única candidatura anunciada até à data, de André Ventura, assusta-o, pois, o regabofe e o domínio institucional exercido pelo PS terminaria abruptamente e provavelmente com o seu fim chegariam consequências nefastas para muitos socialistas e outros amigos. O surgimento de mais candidatos, sobretudo um do PS, abriria ainda mais a possibilidade de uma segunda volta entre o presidente do CHEGA e o actual Presidente da República e, numa segunda volta, muito pode acontecer – estou seguro de que ninguém esqueceu as eleições presidenciais de 1986.

A segunda parte da estratégia, e sem dúvida a mais importante, passa pelo namoro com Rui Rio (e diz-se, com o CDS). O período pós-COVID 19 será muito difícil do ponto de vista financeiro. Já esta semana Costa reunirá com os partidos para preparar aquilo que será o Orçamento Rectificativo, ou Suplementar e esperam-se medidas duras para os portugueses, estando em equação aumentos de impostos – aqueles que Centeno diz sempre que não existem, mas que são desmentidos pela maior carga fiscal de sempre em 2018 de 35,4% e que em 2019 foi ainda de 34,8% do PIB.

Ora, para isto, dificilmente o PS contará com o apoio da extrema-esquerda (talvez não em 2020, mas seguramente em 2021). BE e PCP não quererão estar ligados a um novo período de contenção e, sobretudo, a aumentos de impostos, sendo que já viabilizaram o actual OE, que agora tanto criticam, não cometerão o mesmo erro, sobretudo porque ambos perderiam eleitorado (parte para o CHEGA), sobretudo o PCP.

Esta espécie de Governo de Salvação Nacional com Rui Rio e Marcelo será a melhor opção de Costa. Rio tem feito uma oposição fofinha, é subserviente, o que se nota nos elogios de Costa que ainda este fim de semana o apelidou de “líder da oposição”, quando é notório que mesmo internamente Rio tem dificuldades em liderar, e inclusivamente, já afirmou que apoiaria o Governo nos esforços pós-pandemia.

Esta união traz consigo duas vantagens, prevê Costa: dificultar a aproximação do CHEGA, que só com uma geringonça menos à esquerda e, sobretudo, menos extremista seria possível dada a ascensão galopante do partido liderado por André Ventura; e acabar com a oposição do PSD (o CDS já pouco conta) para os próximos anos – grande parte dos sociais-democratas não perdoariam Rio por isso e a ideia generalizada de que há coisas “cozinhadas” entre os ainda dois maiores partidos, levariam a uma forte queda do PSD, que o primeiro-ministro, como bom estratega que é, espera, mas esconde o jogo.

A esquerda que se considera moralmente superior, que se julga dona da razão, que crê ser detentora de todas as verdades; a esquerda intolerante e extremista, e que até já está bem dentro do partido, afastará o PS da sua matriz socialista, radicalizará o partido e criará fissuras que afastarão eleitorado. Costa quer demarcar-se disto, o que se nota na pouca ligação deste Governo ao partido, pois sabe bem que o CHEGA cresceria e muita coisa iria mudar…

Nuno Afonso