O liberalismo social

A esquerda portuguesa não sabe nem quer saber o que é o liberalismo social conhecido na Alemanha por ordoliberalismo. Para ela o liberalismo é uma doutrina que aposta no desaparecimento do Estado dos circuitos económicos e sociais e provoca o regresso a um capitalismo «selvagem» sem peias e limites, uma espécie de reino do «salve-se quem puder», em prejuízo obviamente dos necessários equilíbrios sociais.

Esta visão distorcida das coisas é-nos imposta à força. O grande triunfo da esquerda nacional é conseguir fazer-nos acreditar naquilo em que ela quer que acreditemos através de uma forma de tirania ideológica. A maior parte de nós é vítima desta mentira. E mesmo pessoas que têm a obrigação de pensar caem nela.

Ora a visão que a esquerda tem do liberalismo é completamente falsa. Demonstra a sua tradicional falta de cultura e má-fé. Mas o pior é que há quem se ponha a jeito como já se vai ver.

O liberalismo conhece várias versões. Evidentemente que existe uma versão radical dita neo-liberal que aposta num apregoado regresso às origens do credo liberal e se manifesta contra tudo o que lhe cheire a intervenção estatal na esfera económica e social. Se o que pretende é o regresso às origens falha o alvo porque o desenvolvimento dos mercados nunca se fez sem a intervenção do poder político e os primeiros liberais, a começar pelo próprio A. Smith, sabiam muito bem disso. Mas existe outro liberalismo mais lúcido e razoável que é o que a União Europeia segue e que defende uma dose adequada de intervenção estatal em prol dos

equilíbrios sociais e económicos. Chama-se-lhe hoje regulação. A actividade económica não se autorregula por uma mão invisível. Pelo contrário, a mão é visível. Nem tudo é negócio, nem tudo é eficiência. Nem tudo é crescimento económico.

O Estado não pode ficar reduzido aos serviços da polícia, do exército e da justiça. Tem de prestar bens e serviços à comunidade que é como quem diz, aos mais necessitados. E para isso é indispensável uma infraestrutura de serviços sociais e um imposto progressivo. Bem sei que algumas passagens do programa do Chega permitem uma interpretação radical do liberalismo. Devem ser rapidamente corrigidas. O Chega tem pago bem caro este equívoco porque se presta exactamente àquilo que a esquerda (neste aspecto toda ela) quer ou seja, encostar o Chega ao neo- liberalismo radical porque assim é muito mais fácil criticá-lo.

Ora, é preciso cuidado. Nem toda a esquerda nacional é impreparada. Se lhe dão o pretexto para atacar o liberalismo radical ela não o deixa escapar e lá vem com os fáceis argumentos de sempre porque não conhece outros.

É indispensável clarificar de vez que a liberdade económica pressupõe o Estado. Pressupõe uma ordem e esta não é espontânea. Requer certa dose de intervenção claro que variável e adaptável às circunstâncias de cada caso. O liberalismo nada sofre com isto. Pelo contrário.

O perigo reside nisto; em Portugal nunca houve tradição liberal. Já A. Herculano se queixava disso no século XIX. Daí que por vezes apareçam a esbracejar alguns neófitos a proclamar aos quatro ventos as virtudes do mais radical liberalismo. A esquerda fica satisfeitíssima porque para os combater tem à mão velhos recursos. Mas contra o liberalismo social não tem. Para os arranjar seria necessário que se cultivasse e procedesse de boa fé coisa

que não fez, não faz e não fará. Cabe-nos não cair na armadilha que nos está preparada.

Luiz Cabral de Moncada