O que é o politicamente correcto?

Esta expressão, muito vulgarizada nos EUA, teve sempre um objectivo; identificar e valorizar posições ideológicas e culturais a favor do comunismo internacional. Como tal mudou muito. Foi uma coisa e depois outra consoante os diversos congressos da internacional comunista; em 1920 era politicamente correcto ser contra a social-democracia e em 1930 era o contrário porque assim o exigia a estratégia da frente única. E em 1939 o politicamente correcto passou até a ser o apoio à Alemanha nazi depois do pacto de não agressão de Ribbentrop-Molotov. Bem o sabia G. Marchais, secretário do partido comunista francês até 1994, que andou naquela altura a entoar louvores à Alemanha. De um modo geral, qualquer posição que contrariasse o marxismo oficial era politicamente incorrecta. Os veículos do politicamente correcto (p c) foram quase sempre os chamados «idiotas úteis» na expressão do próprio Estaline ou seja, os intelectuais escravizados aos partidos comunistas europeus. F. Furet nas suas memórias sobre o partido comunista francês descreve tudo isto muito bem. Conheci vários intelectuais, até universitários, que a troco de férias pagas na Crimeia faziam tudo até justificar o fuzilamento de mercenários britânicos apanhados em Angola pelo MPLA. Protestar contra tal atrocidade era politicamente incorrecto, como o foi alertar contra o fuzilamento de C. Vales e outros pelo mesmo MPLA por ocasião da «revolta activa» de uma facção daquele partido. Foi por causa disto que Z. Seabra saiu do partido. É ela própria que o diz. Não foi politicamente correcta.  

    E hoje o que é o p c? As coisas são mais difusas do que outrora. Já não existe a batuta do PCUS a determinar o tom em que os intelectuais de serviço devem cantar. E a quase desparecida classe operária portuguesa não parece ter grande interesse em entoar a internacional. Mas sem o p c a esquerda cultural portuguesa não vive. Já me referi ao assunto; sem partido operário e sem apoio internacional, a esquerda marxista vive do p c. Em que consiste ele? É muito fácil de entender. Consiste num conjunto de banalidades sobre os mais diversos assuntos que consolidam um pensamento único e totalitário apostado em exorcizar tudo quanto seja desviante ou seja, tudo quanto seja alheio à nova ortodoxia. Como já não existem narrativas globais como o comunismo e a tomada do poder pela classe operária e já ninguém acredita na bondade das nacionalizações, da reforma agrária e do controlo operário e a visão da chita vendida a metro nos armazéns do estado e a preços tabelados já não desperta o entusiasmo de outrora, é indispensável, à falta de melhor, atrair agora certas minorias e até os marginais e quejandos ou seja, aquilo a que Marx chamava desdenhosamente o lumpenproletariat por não ter consciência de classe nem moral revolucionária. A esquerda marxista portuguesa passou do proletariado que lhe liga cada vez menos para o lumpemproletariado. É o canto do cisne.

    Para tanto há que preparar os cidadãos para este desconchavo. A estratégia é infantilizá-los e  eliminar-lhes o perigoso hábito de pensar. As coisas começam pelo ensino, palco por excelência do p c. As crianças passam a pertencer ao Estado em vez de às famílias, o ensino visa destruir o passado e criar a partir do nada um futuro obviamente risonho, estimula-se a denúncia, as desigualdades decorrentes do mérito são contrariadas e mal vistas, o individualismo é ferozmente contrariado, as notas são inflacionadas para garantir o acesso aos graus superiores de ensino, o ensino técnico-profissional é encerrado, a disciplina foi abolida, a autoridade dos professores acabou e a sexualidade é condicionada pela igualdade de género. O igualitarismo impera.

    Automatizadas as crianças passemos agora aos adultos. Estes querem-se infantilizados, incapazes de crítica, dóceis, dúcteis e pacíficos, prontos para absorver as patranhas que lhes contam e deslumbrados com as realizações da maioria. O que se lhes exige é que paguem impostos e que se calem. O objectivo é pô-los a andar de trotinete, todos vestidos e (des) penteados da mesma maneira, corredores de maratona, vegetarianos, especados em frente à televisão imbecilizada e partidária e quanto mais tó-tós melhor. Como já não convencem os operários com promessas vãs, a esquerda portuguesa aposta na formatação por baixo dos cidadãos.

    Mas há um senão. É que a esquerda nacional só absorveu do Maio de 68 o pior. Nunca conheceu D. Cohn-Bendit nem sabe quem foi o imortal G. Debord e de R. Veneigem ou de G.  Sanguinetti nunca ouviu falar. A esquerda nacional, como não podia deixar de ser, só conheceu o refugo. Mas bastou-lhe como era de esperar. O pior é que ficou muito longe das propostas libertárias do Maio de 68. Para tanto começa por atacar a própria noção de consciência. Esta é muito mal vista não vá ser o lugar da independência de espírito e da revolta. Daí que não exista mais consciência como reservatório da moral; agora só há relações e intersubjectividades. Não há moral, há narrativas todas equivalentes. Não há conhecimento, há competências. Não há sexo, há tendências difusas e em transformação. Não há cultura, há artesanato. Teatro só o subsidiado. Não há crime violento, há desadaptação. Não há religião, há psicologia behaviorista. Os escritores protegidos não passam na sua maioria de dactilógrafos e publicitários e o que se promove é a mediocridade. Não há ideias, há barganha. Do esquerdismo da miséria passámos para a miséria do esquerdismo.

    Estaríamos perante meras imbecilidades se o assunto não fosse muito mais grave. A estratégia da esquerda nacional é simples; como a classe operária é cada vez mais diminuta e não parece querer saber dela, vira-se contra a sua principal rival; a Sociedade Civil (sim, com maiúsculas). Aproveita o facto de a Sociedade Civil ter sido sempre fraca em Portugal por falta de cultura liberal. O objectivo é transformá-la por dentro e domesticá-la delapidando as forças vivas que a povoam. O mote é mais estado e melhor estado. Mais funcionários e menos contratos. Mais despesas públicas, mais impostos e mais dependência do estado. Consegue-se assim um estado socialista de funcionários atentos, venerandos e obrigados, estupidificados e infantis. Por cima reina uma esquerda oficial e oficiosa totalitária, inculta e manhosa. O ódio à Sociedade Civil é tamanho que me não admiro nada que os esquerdistas portugueses se convertam um belo dia ao Islão.

    O p c não passará. Será nossa responsabilidade se ficarmos apáticos e refugiados no nosso canto. É preciso sair disto depressa e recuperar a nossa sanidade mental. Queremos ser cidadãos e não carneiros esquerdizados.

Luiz Cabral de Moncada