Os desencontros da esquerda marxista

A esquerda marxista percebeu, e bem, há muito que não basta que o partido enquadre a luta da classe operária transformando-a em política para assegurar o poder. É indispensável a hegemonia cultural. Já Maquiavel sabia que sem esta não há poder que resista.

   Marx e Lenine não deram a menor importância a esta evidência. Foi preciso esperar por Gramsci para que a luta pelo comunismo se transformasse também na luta pela predominância cultural. A final a alegada «super-estrutura» ideológica e cultural não era nada super-estrutural. G. Lukacs compreendeu-o perfeitamente e é por isso que foi perseguido acusado de ocidentalizar o marxismo e de desviar as atenções da luta operária. K. Korsch também mas emendou a mão a tempo. Apesar disso ficaram conotados com um marxismo intelectual e ocidentalizado que desagradava muito aos soviéticos fiéis ainda à velha estratégia da «classe contra classe». L. Althusser com a sua autoridade de intelectual oficial do PC francês recuperou um tanto a importância da luta cultural no seu livro sobre os Aparelhos Ideológicos do Estado. Li-o há quase cinquenta anos numa altura em que as danças da tribo ainda me despertavam alguma (pouca) atenção.     

   A final tudo parecia estar bem. A importância do poder cultural estava consolidada e a esquerda comunista desfrutava dela a ponto de usar e abusar daquilo a que R. Aron chamou o «terrorismo intelectual da esquerda» de que ele, o sociólogo mais inteligente do século XX, tanto foi vítima. 

    Mas eis senão quando as coisas alteraram-se e depressa. A base operária comunista começou a rarear na Europa ocidental bem como a força dos pcs. O operariado já não era o mesmo de Abril de 1917 nem o das Frentes Populares. Dantes havia base operária acaudilhada pelo partido mas sem força cultural porque, convenhamos, o realismo socialista não convencia nem os fracos de espírito e a partir de dada altura passou a haver hegemonia cultural (a que alguns chamam marxismo cultural) mas sem base operária nem enquadramento partidário. Oh diacho!

    É que sem base operária os intelectuais hegemónicos ficam a falar uns com os outros e entretêm-se a perseguir os heterodoxos. É o que sucedeu com R. Dutscke e com os seus correligionários berlinenses e no Maio de 68. Mas há mais; é que separados do partido e da base operária aqueles intelectuais gostam muito mais do protagonismo que lhes oferece o respectivo papel, sempre muito mais agradável e fácil do que andar a militar no partido. Lembro-me muito bem de que no meu tempo de estudante até os mais grunhos queriam ser intelectuais de esquerda, militantes partidários é que não. Depressa esquecem o partido. Foi isto que os seus detractores não perdoaram a G. Lucaks.

    Mas que grande injustiça histórica para o marxismo! Parece que a final a história não era tão previsível e necessária como o marxismo supunha. E como se tanta desgraça não bastasse acresce que sem o perigo da tomada do poder por um partido comunista forte e com largo apoio internacional a sociedade capitalista liberal absorve com pouca dor as propostas culturais da esquerda marxista e neutraliza assim a sua hegemonia. O saudoso comité central do PCUS nunca teve dúvidas disso e daí a insistência no obreirismo e na militância partidária em vez de em derivas intelectuais.

    Mas a desventura da esquerda marxista nas sociedades capitalistas liberais e evoluídas ainda não acabou. A hegemonia é cada vez mais difícil de manter. As direitas já há muito lhes arrebataram em larga medida tal protagonismo e esta tendência é irreversível. De maneira que não lhe prevejo grande futuro. A não ser que aparecesse aí um dia um sebastiânico Lenine sem os erros do passado mas mesmo assim já vinha tarde.

Luiz Cabral de Moncada