Pior que a Pandemia

Este ano a “telenovela” da gripe sazonal foi extraordinária. Uma das senhoras dos briefings disse, sem se rir, que vai haver vacinas para todos e vamos vacinar mais cedo que o habitual. Curiosamente vacinou-se mais tarde e as vacinas faltaram nas farmácias e nos centros de saúde.

Pior que a pandemia é o histerismo colectivo resultante da falta de foco, da incompetência, da irresponsabilidade e da falta de orientação de quem tinha obrigação de orientar.

Ligamos a televisão corremos os vários canais e o tema é Covid, Covid, Covid. Quantos morreram, quantos recuperaram, quantas camas ou falta delas, quantos estão nos cuidados intensivos, toda a informação intercalada com uns briefings de umas senhoras a dizer cada uma sua coisa e coisas diferentes de hora para hora. De quando em vez aparecem os “chefes” a acrescentar muito de coisa nenhuma. E o cidadão comum? Sentado no seu sofá a absorver estas notícias deprimentes e depressivas que nada elucidam, só conduzem ao medo, à insegurança e à depressão colectiva, e que estão a levar os problemas de saúde mental a um dos mais graves problemas do nosso país.

E o pequeno empresário, donde relevo o comércio tradicional e a restauração, que de um dia para o outro ficaram despojados do rendimento que mantinha a sua subsistência e de quem deles depende/dependia? E o idoso “sequestrado” no lar ou no seu apartamento a ver os dias passar sem o carinho ou apoio dos que ama? E os jovens cujo futuro é não ter futuro?

E as crianças que deixaram de ter a magia dos recreios, dos parques infantis e dos grupinhos de amigos? E os portugueses que ficaram sem o seu emprego e não vislumbram, neste amontoado de informações, uma possibilidade de um dia poderem recuperar a sua fonte de subsistência? E o cidadão comum, obrigado a sequestrar-se na sua própria casa, quando no dia seguinte sai para o trabalho e tem de entrar nos transportes públicos onde se juntam pessoas aos magotes? Aí já não há vírus…

Tudo isto sob o “olhar calculista” de quem diz governar-nos e manda tudo para casa ou tudo para a rua sem uma lógica perceptível a qualquer cidadão comum. E o direito à indignação consagrado na Constituição?

O povo português tem de estar vigilante e actuante, não pode nem deve continuar neste estado de letargia que aceita tudo sem sequer questionar. Estamos a assistir a um povo “amordaçado” com o apoio dos media que a troco de 15 milhões dizem o que é preciso dizer e branqueiam o que não convém. O comércio fecha as 13h00 (sábados, domingos e feriados) ou às 15h00 se for véspera de feriado, porque “o vírus tem horas e sítios para actuar, é um vírus selectivo de horas e de locais, e como o horário de fazer compras foi reduzido o cidadão comum vai fazer compras em aglomerados aos sábados e domingos para depois se “trancar em casa” a contaminar o agregado familiar.

Valha-nos Deus, tanta ignorância e irresponsabilidade, ou pior que isso, controle dos portugueses já fragilizados por tanta informação e contra-informação.

Um destes dias o senhor primeiro-ministro apelou a que os privados fizessem ponte nos feriados dos dias 1 e 8 de Dezembro, para acompanhar “o bónus” da função pública. Esqueceu-se o senhor primeiro-ministro que os privados têm encargos, nomeadamente impostos, que se não forem pagos implicam coimas e até penhoras.

Tem alguma piada o senhor ministro Costa, esqueceu-se de um pequeno pormenor, os privados fechados não facturam e se não tiverem receitas como cumprem os seus encargos?

Enfim, coisas de quem foi sempre político. Há situações que só aprendemos quando temos de lutar diariamente por manter as nossas empresas e os nossos postos de trabalho.

Às vezes dá vontade ser político, vive-se num mundo muito mais “cor-de-rosa”…

Como profissional de saúde, não quero nem posso desvalorizar a pandemia nem os riscos da mesma para a saúde pública, sobretudo para os que por razões várias estão mais vulneráveis às consequências dos efeitos do vírus SARS-CoV-2, mas também não tenho de aceitar a política do medo e do terror. Governar, implica informar com rigor e racionalidade, mas também criar uma onda de esperança nos portugueses. Estamos todos fartos de profetas da desgraça que se “acotovelam” para criar a confusão entre os portugueses. Onde estão os estrategas da gestão da pandemia? Se querem cortar a transmissão do vírus, sem matar a economia, não seria preferível deixar funcionar tudo normalmente e fechar ao domingo, o dia do corte da cadeia de transmissão? Porque é que o controle da pandemia não é gerido por especialistas, nomeadamente virologistas, psicólogos e economistas? O poder político não abre mão do controle do povo. Tudo é gerido com “lavagens ao cérebro” aos que estão sequestrados em casa, a ouvir os “governantes” a dizer tudo e o seu contrário à velocidade da luz, até os que já foram contaminados e estão imunes estão sequestrados em casa, a fazer o quê? É assim que vamos vivendo na nossa “terrinha”… Este ano a “telenovela” da gripe sazonal foi extraordinária. Uma das senhoras dos briefings, a mesma que em tempos disse que máscara nem pensar, disse sem se rir e com ar grave como que a incutir confiança: “Este ano vai haver vacinas para todos e vamos vacinar mais cedo que o habitual”. Curiosamente vacinou-se mais tarde que nunca e muito menos pessoas que o habitual. As vacinas faltaram nas farmácias e nos centros de saúde, mas para não assumirem o fracasso da vacinação, que o foi de facto, andam numa azáfama a falar da vacina contra a Covid-19 para Janeiro com vacinação só nos centros de saúde e com marcação. Enfim, nem comento…

E avançar rapidamente e exaustivamente com testes rápidos, para deixar na rua quem testa negativo e assim tentar evitar a morte da economia, e enviar para casa os contaminados, tal e qual aconteceu na Eslováquia, uma vez que está provado que há muitos assintomáticos que andam diariamente a contaminar o colectivo sem o saberem? Porque não o fazem em Portugal? Por incompetência? Por falta de verba para testes? Para defesa dos lobbies ligados a alguns laboratórios? Presumo que seja um mix.

A Eslováquia, pais com cinco milhões de habitantes testou toda a população em dois fins-de-semana, nós somos 10 milhões, não me parece que não fosse exequível fazê-lo de forma eficaz. Assim houvesse vontade política para tal. Em Setembro a Cruz Vermelha ofereceu 500 mil testes rápidos ao Governo para serem usados nas escolas e lares. As autoridades de saúde, as famosas senhoras dos briefings, demoraram mais de um mês a autorizar a sua aplicação, resultado da inoperância e laxismo do sistema.

A verdade é que se não avançarmos rapidamente para medidas como esta, quando acabar a pandemia já não temos economia, e os nossos políticos, aqueles que a maior parte o que fizeram na vida foi ser só mesmo políticos, vão ficar admirados quando a colecta dos impostos não der sequer para pagar os seus vencimentos, porque efectivamente o tecido empresarial já morreu. Aí vão perceber que havia vida para além da pandemia e os portugueses mereciam que os tivessem respeitado…

Maria Manuela Estevão
Presidente Distrital de Santarém
Artigo publicado em O Mirante