Quem tem medo do referendo?

 Quem tem medo do referendo? A esquerda evidentemente. Sempre no nosso país a esquerda se manifestou contra a convocação de qualquer referendo e o caso da eutanásia é apenas mais um. Os extraordinários limites ao referendo que constam da Constituição são a prova real disso mesmo. 

Os argumentos apresentados chegam a ser cómicos; a questão é «muito complexa», o povo «não está preparado» e pode até ser facilmente manipulado por extremistas eivados dos mais cavilosos propósitos. São exactamente os mesmos argumentos que no tempo do Salazar eram esgrimidos contra a democracia. 

Mas não nos iludamos. Estes argumentos coxos pretendem esconder a verdadeira razão. A esquerda parlamentar considera-se a única e verdadeira intérprete da vontade popular. A sua maioria em boa hora eleita é o oráculo da comunidade portuguesa e consequentemente não deve ser auscultado directamente o povo mesmo em questões de consciência individual porque a sua sacrossanta autoridade poderia ser beliscada. Que importa que o referendo seja o mais valioso instrumento de democracia directa e o mais seguro meio de acesso à verdadeira vontade popular? Que é isso em comparação com o discernimento iluminado dos deputados de esquerda? 

O desprezo pela consulta directa do eleitor continua a estar presente na idiossincrasia dos deputados de esquerda. São eles e apenas eles os verdadeiros condutores do povo e os seus únicos mentores. Logo que munidos do título de legitimidade que lhes deu a eleição na lista que o partido escolheu passam 

imediatamente a desprezar a opinião popular classificada como pouco esclarecida, confusa e volátil e, portanto, incapaz de se elevar à altura da complexidade das questões apenas dignas das privilegiadas cabeças de S. ªs. Ex. ªs. O eleitor serve apenas para os reconduzir no parlamento e nada mais. 

A esquerda continua fiel ao jacobinismo parlamentar. Só a maioria é que conta. Tudo quanto seja contacto directo com as massas populares é de evitar. Era só o que faltava perguntar agora directamente ao povo o que ele pensa verdadeiramente sobre a eutanásia. Onde é que já se viu semelhante desaforo? É uma falta de respeito pelas instituições eleitas. É preciso mão dura nestes atrevimentos. Toca mas é a chumbar uma proposta de referendo subscrita por mais de 100 mil pessoas. Imagine-se que a moda pegava. Qualquer dia tínhamos o povinho a questionar a nossa autoridade e competência. 

Luiz Cabral de Moncada