Reina o caos no Ministério da Saúde

Qual barco à bolina, reina em Portugal uma governação verdadeiramente “à vista” em que diária e constantemente se contradizem as indicações entre Capitão, Mestre e Contramestre da tripulação.

Nos últimos dias parecem as dificuldades desta expedição assentar concretamente no sector da saúde, pela verdadeira amálgama que se faz sentir no que respeita ao Coronavírus, análise do problema, cenários expectáveis da sua ocorrência em Portugal, e na forma como se realizará o combate à realidade que se alarga já há algum tempo um pouco por todo o mundo.

As primeiras declarações (quiçá polémicas) foram as da Directora Geral da Saúde, que sensivelmente a meio de janeiro, aparentemente não acompanhando a evolução da pandemia em águas até então distantes, considerou os alertas e a preocupação da Organização Mundial de Saúde “um bocadinho excessiva”, consideração esta que contrastava passada uma semana e meia com a presença do Coronavírus em 9 países.

Citando Graça Freitas, disse a própria que “Não há grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal, mesmo na China, o surto foi contido, porque o mercado foi encerrado. Portanto era necessário que alguma pessoa estivesse nessa cidade, nesses mercados, e que, entretanto, tivesse vindo para Portugal. A probabilidade é muito pequena”.

Portanto o primeiro tiro desta batalha naval foi ao lado.

A 22 e 24 de janeiro igualmente o canhão fez tiro de chumbo grosso em plena água, considerando-se nos dois casos que apenas e respectivamente Portugal estaria “muito atento” e que o SNS aguardava “serenamente”. Não sei bem o que se aguardava, mas como posso eu saber se nem quem o deveria, disso fazia ideia.

O navio lá foi continuando a ondular ao sabor da corrente, e a 28 de fevereiro, a Ministra da Saúde, Marta Temido, em contradição com o positivismo de Graça Freitas veio então dizer (já perseguida pela armada Italiana) que afinal seria, e cito “bem possível” um cenário parecido com o Italiano no nosso país.

Mais, citando novamente, considerou que “Estamos preparados para que um cenário semelhante àquele que está a acontecer em Itália possa acontecer também no nosso país. O que, de acordo com uma previsão de risco normal, é bem possível que aconteça.”

Ora, portanto, já tínhamos passado de um “tranquilo, não passa nada”, para um “cuidado que a coisa há de nos chegar aos marinheiros”.

E assim foi, já chegou. Já cá está. E qual capitão Gancho com medo do “tic-tac” do crocodilo, a muito custo lá saiu Capitão Costa ao público, assumindo na segunda-feira passada a coordenação directa e interministerial do “Covid19”. Inchado como é seu timbre, assegurou mesmo que “não faltará dinheiro para lidar com a epidemia do novo coronavírus”. Calma marujos! Se o Capitão Costa disse, está dito. Afinal palavra dada é palavra honrada. Sobretudo a dele. Não deixa, no entanto, de ser curioso que o local onde Costa afirmou haver fartazana nas contas públicas foi o Hospital de S. João no Porto que não foi bafejado pela mesma fartura económica, continuando a esperar a construção da ala pediátrica e as crianças com cancro a serem tratadas em contentores.

Ou seja: a minha sensação é que nem Costa, nem Temido, nem Freitas, sabem o que andam a fazer. Mas o que me preocupa mesmo é que nenhum dos portugueses sabe o que eles andam a fazer

Em primeiro lugar os problemas não se atacam depois de já existirem. São previstos e dispõe-se a armada antes do inimigo chegar, para no momento certo nada falhar. Uma vez não tendo acontecido dessa forma não basta dizer que há dinheiro.

E as camas para os doentes infectados num cenário de extenso alargamento há? E o reforço dos médicos e enfermeiros necessários para um cenário de crise estão previstos? Quantos? Como? Onde? E os medicamentos, quando nem há escassas semanas Portugal garantia o Stock de Benuron nas farmácias, estão garantidos? Como? Em que quantidade? E os planos de contingência de serviços públicos e fronteiras? Estão feitos? Por quem? Com que base? Quando se revelam?

Quer dizer, não quero com isto contribuir para um clima de alarme social que em nada ajuda, mas na verdade ainda ninguém respondeu a nenhuma destas questões. Não respondeu e devia ter respondido.

Resultado prático, como sempre continuamos a meter água, e mesmo já com casos confirmados de portadores do vírus no nosso país, ainda estou para ver a coisa a propagar-se, as respostas a teimarem em não surgir e o individuo que está lá naquele ponto alto de vigia dos navios que aqui não escrevo o nome porque me chamariam logo mal educado, ainda continuará a exclamar:

“Capitão, terra à vista”

Rodrigo Alves Taxa
Assessor Jurídico Gabinete Parlamentar Partido Político CHEGA