André Ventura, o ex-social-democrata que abandonou o PSD para criar o seu próprio partido, é um dos candidatos portugueses a eurodeputado e o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto.

É líder do recém-criado Chega, cabeça-de-lista às europeias pela coligação Basta e um dos políticos portugueses mais polémicos dos últimos tempos.

A menos de uma semana das Eleições Europeias – que se realizam este domingo – André Ventura conversa com o Notícias ao Minuto e admite que o chateia “um bocadinho” o facto de ter sempre “30 lupas” em cima de si e do seu partido.

No entanto, o ex-social-democrata garante que não vai baixar os braços, nem alterar o seu discurso que reconhece ser “forte”.

Aliás, André Ventura não tem dúvidas de que se não fosse ele a apontar o dedo a quem não quer trabalhar, alguém surgiria eventualmente para o fazer, dado o estado de saturação em que os portugueses se encontram.

E embora seja alvo constante de ameaças, o fundador do Chega diz que está na política para “ganhar”. Por outras palavras, André Ventura quer derrotar o sistema ao qual já pertenceu e ser primeiro-ministro de Portugal. 

A constituição do partido Chega e da coligação Basta foram alvo de percalços. Uma questão de burocracia ou uma tentativa de o afastar das eleições? 

Não tenho nenhum elemento que me permita dizer que o objetivo era afastar-nos das eleições, mas que o excesso de burocracia podia ter colocado em causa o partido, podia. E a questão do nome custou-me um bocadinho. Nós até compreendemos a confusão entre o nome do partido e da coligação. Mas depois sucessivamente os nomes não davam quando nós temos o Partido Comunista Português e o Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses e não houve confusão. Tivemos a Aliança Democrática e temos agora o Aliança e também não houve confusão nenhuma. E ainda houve o problema com os polícias… 

Eu peço às pessoas para pensarem nisto: um polícia não pode ser candidato e um suspeito de um crime pode?

Mas os outros partidos não têm agentes das autoridades nas listas. 

E os agentes da autoridade serão pessoas de segunda no nosso país? Nós tivemos a notícia esta semana de um indivíduo que está preso preventivamente no âmbito do processo relativo à invasão de Alcochete e é candidato. Eu peço às pessoas para pensarem nisto: um polícia não pode ser candidato e um suspeito de um crime pode? 

Dá ideia que no resto do país tudo pode funcionar, mas quando toca ao André Ventura e ao Chega é preciso olhar com 30 lupas

Ainda assim vai insistir na candidatura do militar da GNR Hugo Ernano depois para as legislativas.

Vou sim e estou muito curioso para ver o desfecho, porque é bom que as pessoas se lembrem que já tivemos um militar na Presidência da República. Eu sei que a lei era diferente na altura, mas era militar, não o deixou de ser, foi candidato e venceu as eleições. Um parecer da PSP dizia que o agente não podia ser candidato se não estivesse de licença, mas tínhamos um polícia na Madeira que tinha sido candidato pelo PSD e tinha sido eleito para deputado sem ter uma licença sem vencimento. Dá ideia que no resto do país tudo pode funcionar, mas quando toca ao André Ventura e ao Chega é preciso olhar com 30 lupas. 

A questão com a comunidade cigana tenho a certeza de que se não fosse eu a dizer alguém ia acabar por dizer, fosse daqui a um ano, dois ou 10

E por que razão é assim com o André Ventura? 

Porque o André Ventura veio dizer verdades inconvenientes que o sistema acha que não devem ser ditas. Mas se não for eu, amanhã é outra pessoa, porque o sistema português não há-de conseguir durante muito mais tempo controlar essas verdades. A questão com a comunidade cigana tenho a certeza de que se não fosse eu a dizer alguém ia acabar por dizer, fosse daqui a um ano, dois ou 10. 

Por que motivo tem essa certeza? 

Porque as pessoas sentem isto. Ouve-se em todo o lado. Se me matarem amanhã, outra pessoa há-de aparecer. O que o sistema não pode fazer é sempre que vê alguém diferente tentar asfixiá-la. A verdade é que se eu não tivesse presença na comunicação social era ignorado e remetido para o mais elementar buraco da comunicação. Só que não podem fazer isso, e como não podem, todos os dias me atacam de forma mais miserável, com ataques pessoais, baixos, académicos, de todo o tipo. 

Não vou desistir até ganhar as eleições neste país e, por isso, podem atacar o que quiserem. Pode demorar mais ou menos, mas sei que vou ganhar

Quem está a fazer os ataques pessoais? 

Os comentadores e cronistas, todos os dias. Estão no seu direito, é a liberdade de opinião e cada vez que me atacam dão-nos ainda mais força para continuar. Tenho dito em todos os comícios: não vou desistir até ganhar as eleições neste país e, por isso, podem atacar o que quiserem. Pode demorar mais ou menos, mas eu sei que vou ganhar. 

O que é para si “ganhar”? 

Ser primeiro-ministro. Eu sei que vai acontecer, só não sei é quando. 

Há quem nos acuse de ser um partido de polícias, mas eu prefiro ser um partido de polícias do que um partido dos ladrões que nos andaram a governar durante 40 anosAinda sobre os polícias. Tem dois agentes na lista do Basta e um funcionário civil da polícia como vice-presidente do Chega. Porquê? 

Porque os nossos polícias são tão mal-tratados que tivemos de dar um sinal de que eles são cidadãos de primeira e que os queremos connosco. E mal lançámos esse repto o desafio foi aceite, o que significa que eles precisavam desse desafio. Há quem nos acuse de ser um partido de polícias, mas eu prefiro ser um partido de polícias do que um partido dos ladrões que nos andaram a governar durante 40 anos. 

Podia ter ficado confortavelmente, acho que seria líder do PSD em 2020, mas decidi sair porque senti que já não era o meu partido

Mas já foi do PSD.

E com muito orgulho. Fiz parte de todos os escalões até ser candidato a uma das principais autarquias do país. Podia ter ficado confortavelmente, acho que seria líder do PSD em 2020, mas decidi sair porque senti que já não era o meu partido. 

E o PSD não é um partido do sistema? 

É. E eu fiz parte do sistema, mas percebi que o sistema já não está a funcionar e decidi sair. Não estou a acusar o PSD de nada, fiz parte do PSD, estive lá. 

Neste país, tudo o que é diferente é de extrema-direita. Mas se fosse de extrema-esquerda ninguém se importava

Esta nova “força anti-sistema”, como a descreve, está a ser apelidada de extrema-direita. 

Claro que está. Neste país, tudo o que é diferente é de extrema-direita. Mas se fosse de extrema-esquerda ninguém se importava. Quando o Bloco elegeu deputados para o Parlamento português acharam normal quando, na verdade, era uma conjugação de forças algumas delas tão radicais que defendiam a nacionalização de tudo, inclusive da autoridade privada. 

Então por que razão acontece com a direita? 

Por razões históricas foi criado o fantasma da extrema-direita. Tudo o que pede mais justiça, menos impostos para não estarmos a distribuir dinheiro por quem não quer fazer nada é extrema-direita. E eu acho que não é. Eu não reconheço naquilo que defendo o epíteto normal da extrema-direita, reconheço verdades que têm sido ditas. 

Quem me conhece sabe que eu não sou uma pessoa violenta, nada na minha história aponta que eu seja uma pessoa violenta, nem nunca promovi uma espécie de violência

Qual é essa caracterização “normal” da extrema-direita? 

É um movimento violento com inspiração nos movimentos dos anos 20 e 30 da Europa. Houve um jornal de referência que, num editorial, fez uma espécie de paralelismo entre uma vitória dos nazis na 2.ª Guerra Mundial e a minha prestação num debate televisivo. Isto cria medo nas pessoas. Esta é a estratégia do sistema, mas quem me conhece sabe que eu não sou uma pessoa violenta, nada na minha história aponta que eu seja uma pessoa violenta, nem nunca promovi uma espécie de violência. 

O Hitler também não era uma pessoa violenta 

Não sei. Sei que o Partido Nacional Socialista tinha desde a sua origem milícias armadas e nada disso acontece connosco. Somos um partido pacífico de gente pacífica. 

Apesar de não ser uma pessoa violenta, a verdade é que o seu discurso pode, de alguma forma, incitar à violência quando diz, por exemplo, que as “minorias vivem à custa de quem trabalha todos os dias”. Não é xenofobia? 

Eu acho que não é. Não digo que as minorias vivem à custa de quem trabalha todos os dias. Digo que há grupos e comunidades que vivem. Os estudos apontam, no caso da comunidade cigana, que apenas 15 ou 20% vivem do seu trabalho. A questão que se coloca é: os outros vivem do quê? 

Eu posso ter medo, mas o Estado não pode. E connosco o Estado não vai ter medo de ninguém

Como é que pretende resolver esta questão? 

Dizendo-lhes que têm de cumprir, como qualquer outro cidadão. Não pode haver hospitais em que os médicos atendam primeiro pessoas por serem de determinada comunidade porque têm receio do ‘baralho’ que vai ser feito à porta. Eu posso ter medo, mas o Estado não pode. E connosco o Estado não vai ter medo de ninguém.  

Mas não receia que o seu discurso possa apelar, ainda que inconscientemente, à violência? 

A questão é que chegámos a um ponto em que só este discurso é que faz as pessoas perceberem. É uma linguagem forte? É, mas as pessoas têm de perceber a gravidade da situação. Espero, e sempre pedi que isto se resolva sem violência, mas se não resolvermos isto a tempo, um dia alguém vai resolver a mal. A História mostra isso e o Brasil é um exemplo disso mesmo. 

Sabe porque é que as pessoas elegeram Bolsonaro? Porque já estavam tão fartas do politicamente correto, de não haver soluções

Refere-se à eleição de Jair Bolsonaro? 

Sim. Sabe porque é que as pessoas o elegeram? Porque já estavam tão fartas do politicamente correto, de não haver soluções, que escolheram uma pessoa que diz que prefere ter um filho morto a um filho homossexual e que diz que vai armar a população para matar os bandidos. Quando alguém diz isto e as pessoas aderem é porque o estado de saturação já é tão grande que as pessoas aderem a qualquer coisa. E quero evitar que cheguemos a esse ponto. 

Já disse que as minorias têm de trabalhar e pagar impostos. Mas os imigrantes quando chegam a Portugal começam por receber subsídios que os ajuda a estabelecerem-se… 

E bem. A um casal que se apresenta cá e diz que quer trabalhar, que se quer inserir na nossa comunidade nós temos o dever de o ajudar a enraizar-se, temos de o ajudar a perceber a língua para então conseguir trabalhar. O que não pode acontecer é ficar a enraizar-se a vida toda. Tem um tempo para isso. Olhe, poucos – se é que há alguém – podem acusar os nossos emigrantes de viver à custa de subsídios e ajudas. 

Ninguém deixa entrar pessoas na sua casa que não saibam quem são. É muito bonito dizer que o fazem, como diz o Bloco de Esquerda e o Livre, mas ninguém o faz

Disse publicamente que não há um controlo efetivo dos que imigrantes e refugiados que chegam à Europa. O que está a falhar? 

O que está a falhar é que as pessoas chegam à fronteira externa da UE e ou entram sem controlo ou entram com um controlo diminuto porque há uma incapacidade tremenda de cruzamento de dados que evitem situações embaraçosas. Têm sido noticiados casos de pessoas que tentaram asilo em sítios diferentes, vezes sem conta, com identidades diferentes, o que significa que há um mercado de identidades à volta da UE. Oiça: ninguém deixa entrar pessoas na sua casa que não saibam quem são. É muito bonito dizer que o fazem, como diz o Bloco de Esquerda e o Livre, mas ninguém o faz. 

Como é que então conseguimos saber quem são quando, na maioria das vezes, estas pessoas chegam às nossas fronteiras sem nada? 

Temos de ter controlo biométrico, troca de informações e partilha de dados com os países de origem. Aliás, e não quero ser mal-interpretado, há pessoas que chegam com iPhones na mão. Será que não têm Facebook? Outra rede social que permita identificá-los? É preciso que fique claro: a maior parte destas pessoas foge da guerra, do terrorismo, da perseguição e da fome e nós devemos estar abertos a recebê-las, exceto àquelas que não fogem nem da guerra, nem do terrorismo, nem da fome e vêm para cá provocar guerra e terrorismo. Esses não os podemos deixar entrar. Pode parecer pouco humano, mas eu prefiro isso a um dia haver um ataque terrorista no nosso país. 

A questão do querermos ser solidários não pode tornar-se sermos fracos no controlo, porque estamos a colocar em causa o nosso futuroEntão o que fazemos a essas pessoas? 

Enquanto não tivermos certeza das suas identidades não podem entrar. Não podemos ter pessoas a circular na União Europeia sem identidade. 

E o princípio da solidariedade? 

Temos de perceber que a questão do querermos ser solidários não pode tornar-se sermos fracos no controlo, porque estamos a colocar em causa o nosso futuro. 

Mas se não há como fazer controlo o que é que podemos fazer? 

Primeiro o que tem de ser feito é dar condições aos países de origem para os acolherem novamente. Nos casos em que isso não for possível têm de esperar na fronteira externa da UE que haja condições para que sejam identificados. 

Portanto, deixamo-los à espera. Mas com condições de sobrevivência? 

Claro. Sempre defendi que nos centros de acolhimento têm de haver condições mínimas de humanidade, como nós gostaríamos de ter e como nós europeus tivemos quando a Europa esteve em guerra. Aliás, se antes da guerra eu chegasse à Síria e ao Iraque sem documentos não me deixavam entrar, isto é parte do próprio mecanismo internacional de sobrevivência. 

in Notícias ao Minuto