Temos de os compreender

Temos de compreender o partido socialista. Não para o desculpabilizar em termos eleitorais mas para melhor o situarmos. Nos últimos tempos sucedem-se os escândalos na governação socialista, desde a justiça à saúde, entre tantos outros exemplos. É natural? É.

E porquê? Porque o PS é cada vez mais um partido de quadros. Alturas houve em que não era. Todos nos lembramos da direccção de M. Soares e da coragem que a caracterizou contra o estalinismo gonçalvista. O país deve-lhe muito. Mas esses tempos passaram. Sem lutas a travar em nome da democracia e sem ideologia política definida reivindicando apenas um vago sentimento de «solidariedade» com o próximo, asserção que tem em comum com os fiéis ao Santuário de Fátima, ao PS só resta segurar o poder a todo o custo e para tanto compensar fidelidades.

Vejamos. O PS defronta-se hoje com uma realidade difícil. Os (bons) lugares disponíveis são cada vez mais raros e consequentemente a concorrência instalou-se. É que o sector empresarial do Estado é uma sombra do que já foi, o sector empresarial autárquico está falido e as universidades já lhe fecharam a porta há muito tempo; nelas só entra quem tiver qualificações especiais. As sucessivas vagas de privatização deram cabo do maná que eram as empresas públicas pelo que já pouco de significativo resta. De modo que o PS só pode dar vazão aos seus quadros, cada vez mais impacientes, nos hospitais públicos, na CGD e empresas dela dependentes, na comunicação social, nas CCDRs e nas entidades privadas controladas pelo Estado. O que

resta, portanto, é alguma coisa mas é pouco. A maçonaria de onde são originários muitos dos quadros do PS está repleta. Parece que há bichas à porta. Até porque a ela já chegam neófitos oriundos do BE cheios de fome e de vontade de comer. A velha regra de ouro segundo a qual na maçonaria ninguém ficava desempregado conhece cada vez mais excepções. É preocupante.

Aquilo de que o PS tem medo não é das eleições. O português eleitor é fiel às suas opções e não deixará de premiar o PS. Aquilo de que o PS tem medo é do aparecimento de uma Sociedade Civil forte e independente do Estado baseada numa classe média moderna, liberal e próspera virada para a meritocracia. Não porque lhe faltassem apoios mas porque a colocação dos respectivos quadros seria muito difícil. É esse o problema principal. Trata-se de uma perspectiva que assusta o PS mais do que uma maioria absoluta da direita.

Qual então o caminho? Aumentar o Estado seja por onde for, seja como for, mas aumentá-lo. Já não é fácil nacionalizar empresas nem controlar investimentos mas ainda é possível controlar largos sectores da Administração Pública. Daí a insistência na «solidariedade» e nas salvíficas «prestações» do Estado. Não importa questionar a sua eficácia nem saber se justificam tantos impostos. O que importa é fazer crescer o aparelho do Estado e, dentro dele, empregar quadros socialistas até que o PS e o Estado coincidam.

Naturalmente que não está em causa a indispensabilidade dos serviços sociais nem questionar o Estado Social que é património moral do nosso tempo. Muito menos a solidariedade que é dever e redenção de todo o cidadão que se preza. O que está em causa é a cobertura partidária do Estado Social agora que o Estado empresário ficou para o caixote do lixo da história. A tomada do poder no Estado Social é o último objectivo do PS. Estamos bem entregues. Confiança portugueses.

Luiz Cabral de Moncada