Tribalismo?

 Li há pouco um artigo no Público sobre o tribalismo imputável ao partido Chega. Salvo o devido respeito pelo jornalista, pessoa que merce toda a consideração, não concordo. Verdade seja dita que no artigo se considera o tribalismo como um fenómeno transversal à consciência política actual com especial relevo nas idiossincrasias da esquerda nacional que se considera monopolizadora de inúmeras e salvíficas qualidades morais a arremessar como um dardo sobre tudo quanto dela pensa diferentemente. A diagnose está bem feita. Não atribuo ao jornalista a responsabilidade pelo facto de a fotografia de A. Ventura acompanhar o seu artigo na contracapa do Público sendo certo que o núcleo das suas considerações nem a ele eram dirigidas. Mas a redacção não resistiu. 

Lembro-me de uma breve época em que muito jovem e mais transeunte do que catecúmeno, como não passou despercebido aos habituées, conheci a tribo. Ficou-me de emenda. A diferença está em que a tribo nessa altura reunia em torno de uns indigentes intelectuais que ainda invocavam, imagine-se, a mediocridade de um P. Togliatti, de um M. Thorez e de uns patrícios ainda piores. Uma verdadeira tribo com os seus manitus, os seus ritos iniciáticos e seniores, até no vestuário e adereços. Todos sabemos por experiência própria ou (mais inteligentemente) aprendida o que foi o espectáculo tribal do marxismo nacional. E se nos quisermos inteirar do que se passou noutras longitudes nada melhor do que ler a propósito as memórias políticas do M. Vargas Llosa muito embora a outro nível pois que recordadas com diverso e parisiense pano de fundo. 

Mas vamos ao que importa. A tribo é a personificação da unidade e da intolerância cujo fundamento é o medo do próximo. Nada de pluralismo, nada de crítica, nada de desvios. De um ponto de vista antropológico, o comunismo e o fascismo arrimados na classe ou na raça e no território personificaram a consciência tribal. Que tem obviamente raízes religiosas mas sobre isso não quero discorrer com receio da minha integridade pessoal. Quer um quer outro tresleram a modernidade sob a veste da esquerda e da direita hegelianas. E como eram autossuficientes davam aos seus seguidores uma falsa e estúpida sensação de segurança intelectual e, pior ainda, de valia moral. 

O partido Chega é o oposto disto. Alimenta-se de tendências díspares e diversas oriundas de um núcleo comum que é a insatisfação com o modelo democrático vigente mas para o remodelar e não para o substituir por qualquer aventuroso projecto carismático ou «holista» (na traduzida expressão de Popper). Nada tem de religioso nem de escatológico. Os militantes do Chega não são o povo eleito nem querem chegar à terra prometida pela mão de uma qualquer doutrina ou líder nem aspiram à redenção resultante da adesão a um partido. Pelo contrário. Os militantes do Chega estão simplesmente cansados do sistema (bi) partidário cravejado de vícios redibitórios que se instalou entre nós. O que os move é a crítica racional mas construtiva ao modelo democrático-parlamentar em que vivemos alicerçado numa Constituição que é excelente mas que precisa de alguns (poucos) aperfeiçoamentos. O que os insatisfaz é uma ideologia aderencial repleta de banalidades estupidificantes vendida como qualquer produto na Televendas e que transforma o cidadão numa espécie de zombie

Os militantes do Chega exercem simplesmente o seu direito à crítica. Representam aquilo que de mais proveitoso a democracia portuguesa produziu. Para eles a política não se reduz ao 

comentário do quotidiano nem à empatia pessoal e execram a crença numa doutrina ou num abençoado chefe. Quem vota e vai votar no Chega quer simplesmente participar mais e melhor. É por isso que o partido Chega é verdadeiramente popular porque transversal à sociedade portuguesa e constituído por massas e não por quadros. É contrapoder e não poder. Pós-moderno e não moderno. E é por isso que vai crescer. Sem dúvida que atabalhoadamente mas ainda bem que assim é. 

É isto tribalismo? É o contrário. 

Luiz Cabral de Moncada