Uma direita «identitária»?

De todos os disparates que se ouvem dizer sobre o Chega nenhum me irrita mais do que o que o identifica com uma direita «identitária». Agora durante a campanha eleitoral o epíteto vai ser usado com mais frequência como era de esperar. E a acusação vem mesmo de quem tem obrigação de pensar.

Mas vejamos, o que é a uma tendência identitária? Em termos sociológicos a identidade pressupõe a uniformidade étnica e cultural baseada num passado histórico comum e uma ideologia global pouco atreita a mudanças. Ora, no actual contexto da vida democrática europeia de fronteiras abertas, livre circulação de pessoas e bens, mercado livre e total acesso informático à informação falar naquela identidade seria disparate. Cada vez haverá menos identidade. É um dado adquirido que ninguém no seu perfeito juízo contesta e que favorece uma sociedade aberta aos outros e à inclusão das diferenças como todos desejamos. É o reino da pós-modernidade que já chegou a nós.

O que sucede é que apesar da diversidade e da fragmentariedade étnica, social e cultural há valores comuns sem os quais a comunicação não é pura e simplesmente possível. Até os adeptos do pensamento sistémico sabem disto e não contestam. Sem assimilação recíproca não há inclusão possível nem a desejável comunicação. Estes valores comuns são obviamente os da maioria. Nem sempre foram os mesmos; são hoje mais laicos do que já foram, valorizam a igualdade de sexos, de etnias e de oportunidades, a protecção dos mais desfavorecidos, o acolhimento dos necessitados e, em suma, a solidariedade social. Ninguém duvida.

Ora o que verificamos é que com muita frequência o poder político em Portugal faz tudo para que a comunicação não seja possível e, assim sendo, prejudica os valores maioritários e os media são a caixa de ressonância deste fenómeno. E porquê? Porque na pressa de arrebanhar votos em vez de promover as maiorias promove é as minorias e a tal ponto as favorece com discriminações positivas que estas em vez de contribuírem para o património comum se sentem no direito de arremessar as liberdades totais de que agora dispõem como arma contra a maioria e os seus valores constitutivos. De modo que não há comunicação, há conversas de surdos entre interlocutores de costas voltadas e promoção do ódio. Não há sequer maioria, há apenas um conjunto de grupos minoritários cada um berrando mais alto do que os outros a reclamar as atenções de quem pode. Os partidos do arco do poder sabem que têm um eleitorado razoavelmente fixo e fiel pelo que não hesitam em tentar seduzir novos votantes à custa dos interesses e convicções da maioria. Fazem não importa o quê para sacar mais uns votos. Ainda hei-de ver o dr. Rio a defender a proibição das armadilhas para pardais e a promover uma campanha para a criação do pombo. O dr. Costa fará o mesmo e muito mais; os limites são apenas os da imaginação.

Sé que assim procedendo minam os fundamentos da coesão social e até da própria inclusão que dizem defender. A comunicação só pode estabelecer-se em torno de argumentos razoáveis capazes de aceitação generalizada e é mau caminho proceder ao contrário. Os partidos políticos hoje estão escravizados pela ditadura das minorias e esquecem o óbvio; as maiorias existem, estão sedimentadas e partilham alguns valores comuns, seguramente que muito diferentes dos de há cinquenta anos mas, mesmo assim, comuns. Ao procederem assim esquecem uma evidência; é que as minorias são muitas vezes

oportunistas e sabendo que têm as costas quentes cada vez mais o serão. É um caminho sem regresso; qualquer dia em vez de uma sociedade temos um conjunto bizarro e anárquico de grupos inimigos.

O Chega faz-se arauto dos valores comuns e é isso que provoca o desagrado dos outros líderes partidários e da comunicação social. O partido Chega não é neste sentido identitário; é sim comunitário na plena acepção do termo. Identitários são eles no sentido em que promovem a (identidade da) mais pequena diferença à custa do entendimento alargado e da proveitosa troca de opiniões numa base comum.

Ainda falta muito para que os líderes partidários mais inteligentes, raríssimos em Portugal, compreendam vagamente que ao atacarem o Chega comprometem-se a eles próprios. Defendem as minorias mas ficam sem as maiorias e minam a respectiva base de apoio. O problema é deles. Ainda terá de ser o Chega a fazê-los reconhecer estas evidências?

Luiz Cabral de Moncada