As tempestades Kristin, Leonardo e Marta, que assolaram Portugal entre o final de janeiro e inícios de fevereiro de 2026, deixaram um rasto de destruição massiva e inédita: 16 mortos, centenas de feridos, milhares de desalojados e danos estimados em milhares de milhões de euros. Casas destruídas, infraestruturas colapsadas, cortes de telecomunicações, cortes de energia e cortes a rede de água, afetando centenas de milhares de pessoas. No entanto, o que mais choca não é a fúria da natureza, mas a inépcia do Governo na coordenação e emprego de meios humanos e materiais. Como cidadão atento, vejo nestes eventos um falhanço sistémico que expõe a falta de preparação e a cultura reativa do executivo de Luís Montenegro.
Primeira grande falha: a lentidão na resposta inicial. A Tempestade Kristin, com ventos acima de 200 km/h, atingiu o centro do país a 28 de janeiro, mas a mobilização de recursos demorou horas cruciais e em alguns casos, até dias de desespero.
Populações em vários Distritos ficaram isoladas, sem eletricidade ou comunicações por dias, agravando o caos. Onde estavam os planos de contingência? Por que não se ativaram equipas de emergência preventivamente, sabendo das previsões meteorológicas? A demora resultou em mais vítimas indiretas, como acidentes em estradas inundadas, e expôs a ineficácia da Proteção Civil, que falhou na alocação rápida de bombeiros e equipamentos de bombagem para evitar inundações maiores.
Segunda: coordenação deficiente entre entidades. O Governo não conseguiu integrar forças armadas, autarquias e serviços de emergência de forma eficaz. Exemplos? Danos em bases militares, como Monte Real, onde caças F-16 foram afetados por hangares destruídos, mostram falta de proteção a ativos críticos. Materiais como geradores e veículos anfíbios foram mal distribuídos, deixando zonas rurais sem apoio enquanto cidades recebiam prioridade tardia. A renúncia da Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, a 11 de fevereiro, é prova disso: oposição como o PS e Chega acusaram o executivo de incapacidade, com o Dr. André Ventura a falar em “erros de casting” governamental. Esta descoordenação reflete uma ausência de simulacros regulares e planos detalhados para áreas de risco, como rios propensos a cheias.
Terceira: falhas na prevenção e adaptação climática. Especialistas apontam erros urbanísticos: construção excessiva em zonas de risco, sem bacias de retenção ou drenagem adequada, agravou as inundações. O Governo investe pouco na prevenção e na resiliência, apesar das alterações climáticas tornarem estes eventos mais frequentes. Manutenção negligenciada de diques e equipamentos permitiu ruturas, como em São João do Campo, isolando comunidades. Recursos Humanos, como voluntários e especialistas, foram subutilizados por falta de formação integrada.
Em suma, estas falhas não são acidentais; são o produto de uma governação reativa, sem visão preventiva. O estado de calamidade declarado até 15 de fevereiro e o plano de recuperação de 3 mil milhões são remendos tardios. Exigimos accountability: mais investimento em prevenção, coordenação eficaz e simulacros. Senão, as próximas tempestades – inevitáveis – serão ainda mais trágicas. Portugal merece melhor.
Coimbra, 19 de fevereiro de 2026
Paulo Seco
(Deputado na Assembleia da República)