O resultado das últimas eleições na Madeira, onde um partido liderado por uma figura indiciada em casos de corrupção obteve expressiva votação, revela uma profunda contradição no tecido social e político português, fenómeno este que não se resume a uma mera escolha eleitoral, é um sintoma de uma crise mais ampla, que envolve a educação, a ética e a própria saúde da democracia, onde a vitória de um líder, cuja idoneidade é posta em causa pela justiça, expõe uma iliteracia política e ética alarmante, que não pode ser ignorada.
A iliteracia política, entendida como a incapacidade de compreender e avaliar criticamente as propostas e os comportamentos dos candidatos, é um problema estrutural, ela não surge por acaso, mas é, em grande parte, resultado de um sistema educativo que falha em formar cidadãos críticos, conscientes dos seus direitos e deveres, capazes de discernir entre o que é Ético e o que é Corrupto.
O ensino, que deveria ser o pilar do desenvolvimento de uma sociedade democrática, tem sido substituído por um modelo enviesado, mais preocupado em promover agendas ideológicas divisionárias do que em fomentar o pensamento crítico e o debate pluralista.
Este cenário é agravado por uma classe política que, em vez de servir ao bem comum, busca perpetuar-se no poder através de práticas clientelistas e corruptas, em que a manutenção de um sistema político putrefacto, onde os interesses partidários e pessoais se sobrepõem aos do povo, é facilitada por uma comunicação social que, em muitos casos, age como extensão desses mesmos interesses, onde a falta de independência e pluralismo nos meios de comunicação contribui para a desinformação e para a manipulação da opinião pública, reforçando a iliteracia política e ética.
O resultado é um povo anestesiado, distraído por fait-divers superficiais e incapaz de exigir responsabilidade dos seus representantes e a máxima, “A mulher de César, além de séria, tem que parecê-lo” nunca foi tão relevante, pois num contexto em que a honestidade e a transparência são essenciais para a legitimidade do poder político, a tolerância com a corrupção e a falta de ética é um sinal preocupante de que a democracia está a ser substituída por uma Cleptocracia, onde o poder é exercido para benefício próprio e não para o bem comum.
A IIIª República, como projeto democrático, está em crise, moribunda e a justiça, que deveria ser o garante da igualdade perante a lei e o combate à corrupção, tem sido lenta e ineficaz, contribuindo para a erosão da confiança nas instituições, onde a falta de consequências para os atos de corrupção e a impunidade generalizada reforçam a ideia de que o sistema está podre e que a mudança é urgente.
Para reverter este cenário, é necessário um compromisso colectivo com a educação, a ética e a transparência, em que a educação deve ser reformulada para formar cidadãos críticos e informados, capazes de distinguir entre o que é aceitável e o que é inaceitável no exercício do poder, onde a comunicação social deve recuperar o seu papel de vigilante do poder, promovendo o debate pluralista e a informação independente e a justiça deve ser reforçada, com mecanismos eficazes de combate à corrupção e à impunidade.
A democracia não é um dado adquirido, é um projecto que exige participação, vigilância e responsabilidade de todos, porque se não agirmos agora, corremos o risco de ver a nossa democracia substituída por um sistema onde o poder serve apenas a si mesmo, em detrimento do povo que o elege.
A escolha é nossa, ou nos unimos para salvar a democracia, ou aceitamos viver numa cleptocracia e o futuro da República depende das decisões que tomarmos hoje.
Mário Cavaco
Comissão Política da Distrital de Beja
Partido CHEGA