Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal da Figueira da Foz
Eng. José Duarte Pereira
Sessão Solene 25 de Abril
Senhor Presidente da Assembleia Municipal,
Senhoras e Senhores Deputados,
Todos os anos ouvimos exatamente os mesmos discursos sobre o 25 de Abril.
As mesmas palavras, as mesmas palmas, os mesmos protagonistas de sempre a tentar dar lições de democracia aos outros.
Quase parece um ritual ensaiado. Um momento em que alguns sobem a esta tribuna para repetir frases bonitas sobre liberdade, democracia e povo — mas que muitas vezes passam o resto do ano a ignorar aquilo que o povo realmente diz.
E por isso começo com algo simples:
O 25 de Abril não pertence a nenhum partido.
Não pertence à esquerda.
Não pertence à direita.
Não pertence a nenhum grupo político que se ache dono da história.
A liberdade conquistada em 1974 não foi feita para servir apenas uma parte do espectro político. Foi feita para todos os portugueses — incluindo aqueles que hoje ousam pensar diferente.
Durante décadas tentaram transformar o 25 de Abril num símbolo exclusivo de uma determinada visão ideológica. Como se quem não alinhar com essa visão fosse automaticamente menos democrata.
Mas a verdadeira democracia mede-se precisamente pelo contrário.
Mede-se pela capacidade de aceitar vozes incómodas.
Mede-se pela capacidade de ouvir críticas.
Mede-se pela capacidade de tolerar quem discorda.
E infelizmente, em Portugal ainda há quem tenha muita dificuldade em lidar com isso.
Há quem fale muito de liberdade… mas fique profundamente incomodado quando aparecem partidos ou cidadãos que dizem aquilo que muitos preferiam não ouvir.
Há quem celebre abril… mas depois passe o resto do ano a tentar deslegitimar quem pensa diferente.
E isso, sejamos claros, não é liberdade.
Isso é apenas hipocrisia política com cravos na lapela.
Falo hoje também como uma jovem mulher de 29 anos.
Uma geração que já nasceu em democracia.
Uma geração que cresceu a ouvir que Portugal tinha um enorme potencial.
Mas também uma geração que começa a fazer perguntas incómodas.
Onde está o futuro que nos prometeram?
Temos jovens que trabalham e continuam sem conseguir comprar casa.
Temos famílias a lutar todos os meses para pagar renda.
Temos uma geração inteira a adiar filhos, projetos e sonhos porque simplesmente não tem condições para os concretizar.
E depois vemos milhares de jovens portugueses a fazer as malas e a sair do país.
Não porque não amem Portugal — mas porque Portugal muitas vezes parece não lhes dar espaço para construir aqui a sua vida.
E enquanto isto acontece, continuamos a ouvir discursos cheios de moral de quem governa ou governou durante décadas.
Discursos de quem fala de abril como se fosse uma medalha permanente… mas que teve tempo suficiente para resolver muitos dos problemas que hoje existem — e não resolveu.
A verdade é que para muitos portugueses a democracia começou cheia de esperança… mas hoje é muitas vezes vista com frustração.
Porque a liberdade de votar de quatro em quatro anos não chega quando as pessoas sentem que a sua vida não melhora.
E é aqui que entra a minha geração.
A geração que já não se contenta com discursos bonitos uma vez por ano.
A geração que pergunta:
porque é que Portugal continua sempre com o potencial… mas nunca chega ao resultado?
Porque é que continuamos a ser um país onde trabalhar não chega para viver com tranquilidade?
Porque é que continuamos a ser um país onde tantos jovens têm de sair para ter as oportunidades que não encontram aqui?
E quando alguém levanta estas perguntas… aparecem logo os guardiões da moral política a dizer que isso é populismo, que isso é radical, que isso é perigoso.
Mas perigoso é ignorar aquilo que as pessoas sentem.
Perigoso é fingir que está tudo bem quando cada vez mais portugueses se sentem afastados da política.
Se o 25 de Abril significou devolver o país ao povo, então está na hora de voltar a ouvir esse povo.
Ouvir o que dizem nas ruas.
Ouvir o que dizem nas famílias.
Ouvir o que dizem aqueles que já perderam a paciência para discursos vazios.
Porque a democracia não é um ritual anual.
A democracia é confronto de ideias.
É debate.
É aceitar que num país livre vão existir opiniões diferentes — até opiniões que incomodam profundamente quem está habituado a dominar o debate público.
E talvez seja isso que hoje esteja a acontecer em Portugal.
Uma nova geração que já não aceita simplesmente repetir os discursos de sempre.
Uma geração que não quer apenas celebrar abril.
Quer cumprir abril.
Cumprir a promessa de um país onde quem trabalha consegue viver com dignidade.
Cumprir a promessa de um país onde os jovens têm futuro.
Cumprir a promessa de uma democracia onde todas as opiniões contam — não apenas as que são politicamente confortáveis.
Porque a democracia não se mede pelo número de cravos que se colocam na lapela.
Mede-se pela coragem de aceitar que num país livre nem todos têm de pensar
da mesma maneira.
E talvez seja essa a prova de maturidade democrática que Portugal ainda precisa
de assumir.
Muito obrigada.
25/04/2026
João Saltão, Balbina Oliveira, António Sebastião e Nuno Santos
(Deputados Municipais da Figueira da Foz)